Novo de novo

Novo de novo

Legislação é considerada revolucionária e já foi reconhecida pela ONU

Valter Caldana Jr.

05 de agosto de 2020 | 07h30

Valter Caldana Jr. FOTO: DIVULGAÇÃO

Depois de uma saraivada de críticas ferozes, começam a surgir algumas vozes aqui e acolá para defender o projeto do novo Anhangabaú. Isto é muito bom. Assim como foi excelente a reação ocorrida nas mídias sociais a uma foto recente que mostrava a área completamente árida, como a pista de uma avenida. Ambas posições são muito bem vindas pois discutir a cidade, neste século XXI, é vital como oxigênio.

Pelas minhas contas, ainda que não seja especialista em História da Cidade, este que será inaugurado deve ser pelo menos o oitavo “Novo Anhangabaú” em um século. É fato que se a última versão durou mais de trinta anos, intervalo de tempo que, em São Paulo, gera no cidadão uma sensação de eternidade, o que se tem é, em média, um “Novo Vale” a cada 15 anos, aproximadamente.

Por este motivo não vale a pena entrar nesta discussão, se é novo ou não.

Menos ainda considero entrar no mérito específico do projeto em si mesmo. Em primeiro lugar porque o projeto de Biselli+Katchborian é tecnicamente bom. Em seguida porque o escritório conseguiu elevar, e muito, a qualidade da ilustração elaborada e doada à cidade pelo escritório Gehl, o que se constitui num inestimável ganho correlato neste processo.

Também não cabe falar muito do projeto que lá estava implantado e foi destruído, de autoria de Jorge Wilheim e Rosa Kliass, ela ainda atuante, com a participação de Jamil Kfouri e equipe. Pude acompanhar, como estudante, o concurso que ambos venceram. Cheguei, inclusive, a participar de seminários públicos, embriões das atuais audiências públicas, preparatórios do material do concurso disponibilizado para as equipes concorrentes. Um processo de consulta e discussão pública que foi um marco em si, tão amplo quanto possível, realizado no apagar das luzes da ditadura.

Depois, nestes trinta anos tive o privilégio de poder conversar com ambos sobre o projeto, a obra e seu crescimento, suas virtudes e fragilidades. Neste período quase tudo já foi dito, lido, ouvido e escrito sobre ele.

Apenas não se pode deixar de ressaltar tratar-se de um projeto de enorme qualidade urbanística e paisagística, de altíssimo nível, que superou limites do seu tempo e resgatou para a cidade a possibilidade do bom desenho, como tivéramos, havíamos perdido, voltamos a ter e, hoje, perdemos de novo.

Entre suas principais qualidades, elementos estruturais que lá permanecem mesmo com a destruição da parte mais visível de seu desenho estão a transformação do vale em área absolutamente pedestrianizada, o que nunca fora, a conexão sem interrupções entre o centro velho e o centro novo, a criação de uma centralidade cidadã no centro da cidade, na escala da metrópole. Estes elementos estruturadores, que lá permanecem intactos mostram a aceitação, o vigor e os acertos do projeto vencedor do concurso da década de 1980. Espero que estes elementos urbanísticos estruturadores lá permaneçam por muito tempo ainda e que resista a novos Novos Anhangabaús que certamente virão.

Porém, o que não se pode deixar de remarcar neste debate, e se está deixando, é que esta discussão sobre o atual Novo Anhangabau, saudável e necessária, precisa ser feita em três tomos.

Uma coisa é a discussão do projeto em si mesmo, seus aspectos ideológicos, conceituais, simbólicos, técnicos. Suas tangibilidades, transversalidades, materialidades. Sua relação com o entorno e as pré-existências, inclusive o desenho antigo, os edifícios lindeiros, o patrimônio histórico, o calçadão. Sua presença e sua função metropolitana. Pode-se até discutir porque se deixou, de novo, a Praça da Bandeira de lado, ainda condenada a ser este terminal de ônibus que há tempos já não deveria estar lá pois, afinal, a nossa cidade tem uma rodoviária como Praça Cívica.

Outro aspecto é a discussão do programa funcional e do uso que será dado ao projeto implantado, o perfil e a diversidade do público e dos usuários desejados. Também interessaria conhecer os sistemas de manutenção, sempre tão precários em São Paulo. Enfim, discutir o quê, para quem, onde e como. Uma necessária discussão, como também o é a discussão da concessão/privatização do vale e vizinhança definida e decidida em atendimento a estratégias que aparentam passar longe das estratégias de planejamento, projeto e produção da cidade.

Por fim, e aí reside o ponto mais frágil do que se tem falado e escrito sobre o projeto e a obra, é a discussão do processo. Um processo que foi equivocado desde o início. Antigo, datado, superado. Uma demonstração de como não se deveria mais fazer cidade, usando métodos de desenvolvimento de projeto urbano que se servem de instrumentos participativos pouco eficazes, frágeis e restritos quando hoje novos instrumentos colaborativos já estão mais do que testados, comprovados, e demonstram cotidianamente sua eficácia.

Culpa de quem? De alguém? Culpa do prefeito Haddad, que aceitou um conjunto de diretrizes e ilustrações em doação, elaborados a partir de premissas de grupo? Culpa do prefeito Bruno, que deu continuidade ao processo? Culpa do escritório Biselli+Katchborian que desenvolveu as ilustrações do Gehl? Culpa dos demais envolvidos?

Ou não se trata de culpas, mas apenas de um testemunho do quanto estamos atrasados na discussão efetiva da cidade. Sobretudo na discussão de como se dá a produção da cidade. Do quando todos ainda se escondem sob o manto autoindulgente do mantra de que a cidade cresce sem planejamento.

Possivelmente se trata de um testemunho do quanto temos ainda para avançar. Do quanto nossas discussões ainda são superficiais, fora de foco e excessivamente corporativas. Afinal, para se comprovar isso, basta observar os temas, a objetividade e a profundidade do que tem dito e debatido os pré-candidatos a prefeito, na eleição que ocorrerá daqui a fugazes 4 meses.

Por fim, certamente é um testemunho do quanto esta é uma responsabilidade coletiva, da sociedade. Mas que, por outro lado, sendo o Anhangabaú um eterno marco na nossa mega metrópole, que seja então, um testemunho, um marco de uma desejável mudança de postura dos agentes públicos e privados na produção da cidade.

*Valter Caldana Jr. é arquiteto e urbanista, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, coordenador do Laboratório de Projetos e Políticas Públicas, integrou a equipe que elaborou o estudo SP2040. É mestre em Planejamento Urbano e Regional e doutor em Projeto de Arquitetura pela USP

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