Novo ciclo de alta da Selic é resposta do BC à crise e impacta investimentos

Novo ciclo de alta da Selic é resposta do BC à crise e impacta investimentos

Felipe Tadewald*

17 de março de 2021 | 05h30

Felipe Tadewald. FOTO: DIVULGAÇÃO

O mercado financeiro está atento à reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que acontece nesta terça e quarta (16 e 17). O órgão do BC vai deliberar sobre a Selic, taxa básica de juros, que baliza toda a economia. A tendência é que ocorra uma elevação na Selic, atualmente no menor patamar da história (2%). Ela deve subir algo entre 0,25% e 0,50% – a maior parte das apostas indica 0,50%. Se confirmado, esse movimento indica uma medida do BC frente a crise, com impacto direto nos investimentos e no câmbio.

É possível que essa alta, após sete meses sem alteração, indique o início de um movimento que pode durar até o fim do ano. Mas existem alguns pontos determinantes nesse campo, como a inflação, a atividades econômica e o câmbio. Caso a inflação volte a ficar abaixo do ponto médio ou baixo da meta, é possível que as altas da Selic estimadas para 2021 sejam amenizadas.

A economia e câmbio também deverão estar no Radar do BC. Caso a atual intensificação das medidas restritivas seja prolongada e traga efeitos mais severos na economia, é possível que a Selic não sofra mais reajustes consideráveis.

Já o câmbio, com a atual pressão do dólar no preço da gasolina e outros produtos básicos e essenciais, é um fator que também tende a pressionar o BC a elevar juros.

Se confirmado, será o primeiro movimento de alta na taxa básica de juros desde 2015. De lá para cá, a Selic saiu de um patamar de 14,25% para os atuais 2%. Essa expectativa de mudança tem sido observada por economistas desde o começo do ano passado, com alguns apostando em reajuste ainda no fim de 2020.

No entanto, com todo cenário da pandemia instalado, recessão e uma corrida por liquidez, além de uma alta ociosidade na economia, o BC preferiu manter as taxas nos menores níveis como uma forma de tentar amenizar os efeitos da recessão causada pela covid e por ver um IPCA em níveis ainda bastante controlados.

O BC passa uma mensagem de que está disposto a usar esta ferramenta (alta de juros) para controlar a inflação e o avanço do dólar. Cabe lembrar que o IPCA de fevereiro fechou em 0,86%, e os economistas já estão atualizando suas projeções apontando para um IPCA próximo de 5% este ano.

Esse tipo de política monetária é usada pelos bancos centrais de todo o mundo para proporcionar estabilidade econômica, controlar inflação e estimular a economia.

Em períodos de recessão ou baixo crescimento é comum que as autoridades monetárias busquem reduzir os juros na tentativa de aumentar o consumo e os investimentos através de uma maior concessão de crédito para pessoas físicas e empresas.

No curto prazo, para o investidor, o impacto mais imediato é no rendimento da poupança. Desde 2012, essa aplicação passou a apresentar uma rentabilidade igual a 70% da taxa Selic + TR. Logo, seu retorno está diretamente relacionado à oscilação desse indicador. Com os cortes constantes na taxa Selic, a poupança está rendendo atualmente cerca de 1,6% ao ano. É importante lembrar, no entanto, que esta é uma rentabilidade bem inferior à expectativa de inflação para este ano (que está na casa de 4,8%). Assim, mesmo com a melhora no rendimento, a poupança continua sendo uma opção menos rentável que outras opções acessíveis a pequenos investidores, como aplicações em renda fixa, fundos de investimentos, e renda variável (ações e FIIs). Para se ter uma melhor ideia, existem várias ações de empresas sólidas e defensivas que estão pagando, apenas em dividendos, mais de 7%. Fundos imobiliários, em alguns casos, podem chegar a mais de 10%.

Em relação ao câmbio, aumentos na Selic se traduzem na atratividade dos investimentos e maior entrada de dólares no país. Quando a taxa básica de juros e os investimentos de renda fixa brasileiros têm a rentabilidade reduzida, como tem sido o caso nos últimos anos, é comum haver um movimento de saída de recursos dessas modalidades e, inclusive, a saída de investidores estrangeiros.

Pelo fato do Brasil ser um país emergente, os investidores estrangeiros exigem taxas mais atrativas para aplicarem seus recursos aqui, justamente para remunerar melhor o risco e as incertezas fiscais do país.

Logo, em momentos que a Selic aumenta, existe uma tendência de termos uma maior entrada de dólares, apreciando então o real e reduzindo a cotação do dólar.

*Felipe Tadewald, sócio e especialista em mercado financeiro da Suno Research

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