Novo 02 da PF muda depoimento e diz que se reuniu com Bolsonaro sem saber motivo do encontro

Novo 02 da PF muda depoimento e diz que se reuniu com Bolsonaro sem saber motivo do encontro

Carlos Henrique Oliveira, diretor-executivo da Polícia Federal, depôs pela segunda vez nesta terça, 19; ele relatou encontro com o presidente no segundo semestre de 2019, mas afirmou que 'não se lembra' do que conversou com o presidente e com o chefe da Agência Brasileira de Inteligência

Fausto Macedo e Paulo Roberto Netto

19 de maio de 2020 | 18h20

O delegado Carlos Henrique Oliveira, diretor-executivo da Polícia Federal, prestou novo depoimento nesta terça, 19, e afirmou que, diferentemente do que havia informado em sua primeira oitiva, ele foi convidado por Alexandre Ramagem para assumir a cadeira número dois da corporação quando ele foi indicado pelo presidente Jair Bolsonaro para diretor-geral.

Oliveira também narra um encontro que teria ocorrido no segundo semestre do ano passado entre ele, Ramagem e Bolsonaro no Palácio do Planalto. Ele, contudo, não soube informar ‘objetivo específico para sua audiência’ com o presidente.

No último dia 13, Oliveira informou à Polícia Federal que nenhuma pessoa cogitada pela imprensa para ser o novo diretor-geral o procurou para deixar a superintendência do Rio para assumir a direção-executiva em Brasília.

Em novo depoimento, ele muda a versão e afirma que, ‘na realidade, gostaria de esclarecer que foi procurado no dia 27 de abril do corrente ano pelo delegado de Polícia Alexandre Ramagem, que perguntou para ele, depoente, se aceitaria ser diretor executivo da Polícia Federal durante a sua gestão’.

Oliveira confirma que aceitou o convite no dia seguinte, 28 de abril. A nomeação de Ramagem seria suspensa um dia depois, no dia 29 de abril, pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Em depoimento, Oliveira narra que conheceu Ramagem em 2016 quando o delegado coordenou a equipe de segurança de atletas da Olimpíada de 2016 e que seu relacionamento com o delegado é ‘estritamente profissional’.

O delegado Carlos Henrique Oliveira, atual ‘número dois’ da Polícia Federal. Foto: Roberta Guimarães/Alepe

Encontro. Em outro trecho, Oliveira relata que no segundo semestre de 2019, a convite de Ramagem, participou de reunião no Palácio do Planalto com o delegado e o presidente Bolsonaro. Segundo ele, o então diretor-geral da PF, Maurício Valeixo, e o ministro da Justiça, Sérgio Moro, tinham ciência do encontro.

O segundo semestre de 2019 marcou a primeira vez que Bolsonaro tentou emplacar um nome de sua confiança na chefia da Polícia Federal do Rio, após a exoneração do então superintendente Ricardo Saadi. O presidente queria Alexandre Saraiva, do Amazonas, mas o nome indicado pela cúpula da PF era Carlos Henrique Oliveira, então superintendente no Pernambuco.

“Nessa reunião o presidente Jair Bolsonaro fez uma explanação geral da trajetória que havia percorrido até a sua eleição e dos desafios que enfrentou; Que perguntado se o presidente Jair Bolsonaro sabia que o depoente havia sido indicado para a Superintendência da Polícia Federal do Rio de Janeiro, o depoente respondeu que o presidente não disse isso diretamente, mas que isso já era um dado público à época”, afirmou Oliveira.

Oliveira disse que não foi perguntado sobre investigações da Polícia Federal do Rio, mas que esclarece ‘que não foi declarado nenhum objetivo específico para sua audiência com o presidente Jair Bolsonaro’. O encontro teria durado entre 20 a 30 minutos.

Furna da Onça. Na esteira das revelações do empresário Paulo Marinho sobre suposto vazamento de informações da Operação Furna da Onça, que levou à produção de um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) que atingiu o ex-assessor parlamentar Fabrício Queiroz, o delegado foi questionado se tinha conhecimento se algum agente próximo da família Bolsonaro.

O número dois da PF disse que se recordava apenas do delegado Márcio Derenne, que hoje se encontra em missão no exterior, na representação da Interpol na ONU. Oliveira, no entanto, disse que ‘segundo tem conhecimento’, Derenne não participou da operação.

“A proximidade conhecida pelo depoente seria entre o DPF Marcio Derenne e os filhos do presidente, não sabendo precisar exatamente qual dos filhos”, afirmou. O diretor-executivo se recorda apenas de Flávio Bolsonaro participar de eventos públicos e sociais promovidos pela Associação de Delegados Federais.

Segundo Oliveira, Derenne foi cedido ‘em várias oportunidades’ para atuar em outros órgãos, ‘como a Secretaria de Segurança Pública do Rio, o gabinete do senador Lindbergh Farias e para atuar junto ao ministro Picciani Filho’.

Derenne assumiu a posição no exterior, segundo Oliveira, ‘possivelmente’ em 2019. Ele negou que sua indicação ao cargo possa ter ocorrido por interferência política, explicando que se tratou de ‘rigoroso processo seletivo’

“O depoente desconhece qualquer influência política na indicação do PDF para essa função”, afirmou.

Oliveira também confirmou que Ramagem participou da Operação Cadeia Velha, que antecedeu a Furna da Onça, e não soube precisar em qual momento o relatório do Coaf foi produzido.

Questionado sobre a operação Furna da Onça, Oliveira relatou que a expedição dos mandados ‘teve um tramite diferente do habitual’. Segundo ele, o relator da operação, desembargador Abel Gomes, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), levou a decisão para apreciação da Turma Criminal.

O número dois da PF também relatou que, à época da deflagração da Furna da Onça, também havia operações contra Pezão ‘que trouxe consequências na logística e planejamento operacional de tais operações’.

 

 

 

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: