‘Nosso super ministro constitucionalista’, diz operador do PSDB no celular secreto

‘Nosso super ministro constitucionalista’, diz operador do PSDB no celular secreto

Lava Jato identificou mensagens enviadas pelo ex-diretor da Dersa Paulo Vieira de Souza dias antes de ser preso pela investigação do Paraná, em 19 de fevereiro

Julia Affonso

27 de março de 2019 | 13h31

Por meio de quebra de sigilo de dados, a força-tarefa da Operação Lava Jato descobriu a existência de um celular secreto do ex-diretor da Dersa Paulo Vieira de Souza, apontado como operador do PSDB, e que não havia sido localizado durante buscas em sua residência. O Ministério Público Federal identificou também mensagens enviadas por ele dias antes de ser preso pela investigação do Paraná em 19 de fevereiro.

Documento

No dia da prisão de Vieira de Souza, a Polícia Federal encontrou ‘dezenas de cabos USB de carregamento de celulares já devidamente conectados em fontes de carregadores’ no closet do seu apartamento.

A pedido do Ministério Público Federal, a Justiça quebrou o sigilo telemático da nuvem do iCloud de endereços eletrônicos de Vieira de Souza, de sua mulher e da empresa Magna Freitas Carvalho, supostamente captadora de R$ 800 mil do doleiro Adir Assad – cúmplice do ex-diretor da Dersa, segundo a Lava Jato.

O resultado da quebra de sigilo apontou um número de telefone ligado a Vieira de Souza, usado ‘pelo menos, para a troca de mensagens através do aplicativo WhatsApp’.

Uma das mensagens identificadas pela Lava Jato foi enviada a uma interlocutora identificada por ‘Raquel’ em 14 de fevereiro.

“Que trabalho profissional espetacular, com uma dedicação além do relacionamento cliente e sim do bem querer da energia positiva de todas as famílias e amigos de todos os lados, muita oração, rape do page e nosso Super Ministro Constitucionalista. Gratooooo. Paulo Souza.!!!!!”

No mesmo dia, o ex-diretor da Dersa escreveu nova mensagem. ‘MPF e juíza não respeitam o CPP, devido a forma como agiram segurar 4 meses o IQ e dar 48 no início para solicitar as diligências, levaram o processo a prescrição. Falta integridade e correção às pessoas de má fé. PS.’

Nas mensagens, há ainda referência a ‘HC-167727-4-DECISAOMONOCRATICA13022019’. Em 8 de fevereiro, a defesa de Vieira de Souza entrou com pedido de habeas corpus perante o Supremo Tribunal Federal, que recebeu o número 167727.

O ministro Gilmar Mendes, relator do habeas, determinou em decisão monocrática, em 13 de fevereiro, que a juíza Maria Isabel do Prado, da 5.ª Vara Federal de São Paulo, reinterrogasse parte das testemunhas da ação penal em que o ex-diretor da Dersa respondia por desvios de R$ 7,7 milhões em obras de reassentamento do Rodoanel Trecho Sul. A decisão adiou o fim do processo.

Em 1.º de março, Gilmar reconsiderou o que havia ordenado e o caso prosseguiu. Nesta ação, Vieira de Souza foi condenado a 145 anos e oito meses de prisão por peculato, inserção de dados falsos e associação criminosa.

A descoberta do celular secreto contribuiu para o juiz federal Luiz Augusto Bonat, da 13.ª Vara Federal, manter Vieira de Souza preso. O operador havia pedido liberdade em 15 de março ao magistrado da Lava Jato.

A investigação aponta outras mensagens. “Me ligue após avaliar todas as rodas, em sequência fazer o trabalho. PS.”, afirmou o ex-diretor ainda em 14 de fevereiro.

No dia seguinte, Vieira de Souza escreveu a uma interlocutora identificada por ‘Camila’. “Este cara que orçou não é mais para chamar, pois está animado demais. O Paulo René vira 2ªf para verificar se consertamos ou trocamos. O novo não custa mais de (R$2700,00 a R$3.700,00) Marca Komeco ou Rinnai etc !!!! PS.”

‘Camila’ ainda recebeu outra mensagem. “1. Falei com Leandro e ele disse que não recebeu ligação do Paris. 2. Com relação a troca do Aquecedor foi feita por ele, foi deixado o antigo que tem placa boa no mesmo. 3. Uma placa nova custa R$500,00 no máximo e não R$2.200,00 + R$650,00 ou seja R$2.850,00. 4. Este Edson Constantino já avisei a Amanda para não chamar mais, pois prefiro me manter calmo. 5. O Leandro virá amanhã constatar a Verdade, pois placa tem 10% de chance de estar queimada. 6. Fica definido que para estes serviços de Elétrica, Hidráulica e Gaz, Câmera, somente os profissionais que eu autorizei e apresentei. 7. Gostaria que fosse cumprido a definição. 8. Parece que o Cristian está com problema em seu aquecedor e o Leandro, caso queira poderá verificar, basta me informar. PS.”

Entenda as investigações da Lava Jato do Paraná contra Paulo Vieira de Souza

Paulo Vieira de Souza foi denunciado pela Procuradoria da República na segunda-feira, 25. O Ministério Público Federal, no Paraná, afirma que o operador disponibilizou, a partir do segundo semestre de 2010, R$ 100 milhões em espécie ao operador financeiro Adir Assad, no Brasil. Assad entregou os valores ao Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht, aos cuidados do doleiro Álvaro José Novis – que fazia pagamentos de propinas, a mando da empresa, para vários agentes públicos e políticos, inclusive da Petrobrás.

Em contrapartida, relata a investigação, a Odebrecht repassou valores, por meio de contas em nome de offshores ligadas ao Setor de Operações Estruturadas da empreiteira, ao operador Rodrigo Tacla Duran. A Procuradoria da República destaca ainda que o ex-diretor da Dersa manteve R$ 131 milhões em quatro contas no banco Bordier & CIE, de Genebra, em nome da offshore panamenha Groupe Nantes SA, da qual o operador é beneficiário econômico e controlador. As contas foram abertas em 2007 e mantidas até 2017.

Os procuradores afirmam que a Odebrecht repassou ao operador do PSDB um total de EUR 275.776,04 em 26 de novembro de 2007, por intermédio de conta mantida em nome da offshore Klienfeld Services LTD. Em 25 de março de 2008, por meio da offshore Dessarollo Lanzarote, o Groupe Nantes recebeu US$ 309.258,00. Em 19 de dezembro de 2008, por intermédio da offshore Shearwater Overseas, ligada à Andrade Gutierrez, Vieira de Souza foi beneficiário de US$ 643.774,00.

“Em 24 de dezembro de 2007, portanto logo após Paulo Vieira de Souza ter recebido da Odebrecht EUR 275.776,04, cuja transferência aconteceu em 26 de novembro de 2007, um dos responsáveis por sua conta mantida em nome do Grupo Nantes na Suíça solicitou a representantes do Banco a entrega de cartão de crédito no hotel Majestic Barcelona, na Espanha, para Aloysio Nunes Ferreira Filho”, diz a investigação.

Entenda as investigações da Lava Jato São Paulo contra Paulo Vieira de Souza

Além da ordem de prisão da investigação do Paraná, Paulo Vieira de Souza tem uma ordem de custódia da Lava Jato São Paulo contra si. O ex-diretor da Dersa já foi condenado em duas ações penais perante a Justiça Federal paulista.

Em um processo, ele pegou 27 anos de prisão (sete anos e oito dias em regime fechado e 20 anos de detenção em regime semiaberto e aberto) por cartel e fraude à licitação. Em outra ação, Vieira de Souza foi sentenciado a 145 anos e oito meses de prisão por peculato, inserção de dados falsos e associação criminosa.

Em 1º de março, Vieira de Souza virou réu pela terceira vez na Lava Jato São Paulo. O juiz Diego Paes Moreira, da 6.ª Vara Federal, aceitou uma denúncia da força-tarefa da Lava Jato São Paulo contra o ex-diretor da Dersa por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

COM A PALAVRA, PAULO VIEIRA DE SOUZA

A reportagem tentou contato com a defesa do ex-diretor da Dersa Paulo Vieira de Souza. O espaço está aberto para manifestação.

COM A PALAVRA, O PSDB

Quando Paulo Vieira de Souza foi preso no dia 19 de fevereiro, o PSDB declarou:

“O PSDB de São Paulo esclarece que não é parte no processo em questão e não mantém qualquer tipo de vinculo com o sr. Paulo Vieira, jamais recebeu qualquer contrapartida de empresas nem autorizou terceiros a fazê-lo em seu nome. Os recursos recebidos pelo partido, em período eleitoral ou não, foram doados de maneira absolutamente legal e declarados à Justiça Eleitoral, respeitando a legislação vigente.”

“A Executiva Nacional do PSDB não foi informada sobre os detalhes do caso, mas reitera seu apoio e confiança na justiça brasileira, em vista dos esclarecimentos prestados pelo ex-senador Aloysio Nunes”.

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