Nosso negócio não vai acabar hoje

Nosso negócio não vai acabar hoje

Cassio Grinberg*

22 de janeiro de 2019 | 07h00

Cassio Grinberg. FOTO: DIVULGAÇÃO

Mas isso não quer dizer que nossa empresa talvez não desapareça amanhã. Em tempos de transformações radicais, é possível que isso aconteça. Só que é um desperdício ensinar a singularidade unicamente pelo quadro negro da ameaça.

Nada errado em vasculhar estatísticas, indústrias despachadas como farelo de pão, mas é difícil colher criatividade se plantamos um clima desnecessariamente aterrorizador: passar o tempo inteiro lembrando nossos colaboradores de que amanhã podemos não estar mais aqui tem o mesmo efeito que desejar que nossas crianças aprendam sem diversão, pela armadura da palmatória e do castigo.

Pior ainda é querer que nossas equipes encontrem soluções mágicas, especialmente neste contexto pantanoso. No livro Ascensão e Queda do Planejamento Estratégico, o estrategista canadense Henry Mintzberg nos lembra que os imperativos “seja inovador” ou “pense com audácia” afastam a criatividade para uma ilha de isolamento: colocar os gerentes em volta de uma mesa com o briefing repentino de pensar disrupção é uma das melhores maneiras de justamente suprimir isso.

Somos a geração que pensa demais, que tenta entender demais e depois perde tempo de execução explicando o que os jovens estão apenas vivendo. Devemos aprender com nossos filhos, apreender como usam a tecnologia, o que elogiam, do que reclamam: a Apple todo ano convida pré-adolescentes para participar de sua World Developers Conference, na Califórnia; a Ford conduz pesquisas com crianças de cinco anos de idade: ambas acreditam no papel da inovação incremental como protagonista da criação de um futuro diante do qual muitos de nós ainda nos colocamos como meros espectadores.

Enquanto nos recusarmos a conviver de modo menos afetado com a incerteza, e buscarmos garantias de que nosso negócio se tornará exponencial antes mesmo de fundarmos a base, incorreremos no erro clássico de pensar que transferir nossa angústia por ameaça não tem o mesmo efeito de que passar, a um concorrente que ainda nem conhecemos, um cheque ao portador. Isso se a indústria de cheques já não tiver sido reinventada.

*Cassio Grinberg, economista e consultor de empresas

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