Nossa história tem rumo?

Nossa história tem rumo?

José Renato Nalini*

17 de dezembro de 2020 | 14h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Tergiversou-se bastante a respeito do conceito e significado da História. Seria o encadeamento de fatos marcantes e seu registro para conhecimento da posteridade? Seria o relato de tudo o que ocorre num espaço físico em determinado período? A História comportaria lendas e versões, visões subjetivas e reflexão a respeito de episódios observados?

O historiador imediato é aquele que conta o presente. O que é atual, vivo e digno de figurar num compêndio? Há estadistas historiadores e eles costumam apresentar como históricos os seus próprios projetos.

Há uma História reflexiva, que supera o presente e cuja narrativa não guarda, necessariamente, relação com a época. Quem se propõe a narrar acontecimentos numa visão em conjunto do passado, pode alertar o presente e o futuro para que equívocos não sejam renovados. É uma História pragmática, fórmula de tornar o pretérito presente, com a finalidade de extrair de lá um valor moral. É uma prática utilização do passado para a educação do presente.

Alguns céticos afirmam que, embora seja recorrente a afirmação de que é preciso aprender com a história, a experiência ensina que os povos e os governos nunca aprenderam nada com a história.

Um risco de que poucos se apercebem, é forjar com inteligência um tempo presente e depois submeter o passado às condições presentes. Algo que ocorre com a patrulha do politicamente correto em relação a obras escritas em outra época e quanto a monumentos que eternizam pessoas e condições de um tempo que não tem volta.

A história reflexiva pode tender a ser uma história crítica. Julgar os antepassados com critérios contemporâneos é errado e injusto. Comparar personalidades do antanho com as viventes é um exercício frustrante. Remete a Heráclito: ninguém se banha duas vezes nas águas do mesmo rio. Mudam os tempos, mudam as pessoas. Tudo está em contínua mutação.

Há muitos exemplos que evidenciam a falência da história reflexiva. O historiador não pertence à época de cuja história ele trata. Sua intelecção

Do passado não é senão a projeção de seu espírito no espírito do passado. Por isso, a reflexão sobre a história nada mais é que a reflexão do presente sobre o passado.

Indaga-se: alguém pode hoje perscrutar o passado e refletir sobre ele? Qual a condição da verdade do presente valer como verdade para o passado?

O historiador não deixa de ser um ficcionista, pois descreve o passado – ou o presente – com a sua lupa, a sua lente de aumento, de acordo com a sua perspectiva e a sua formação filosófica. Ele se serve e só pode se servir de suas próprias categorias para captar e interpretar a história. Pode contribuir até mesmo com suas construções puramente míticas. Por exemplo, basear-se em Anaxágoras, para quem “a inteligência governa o mundo”. Inteligência que não se confunde com razão consciente porque o sol observa as leis naturais, sem ter consciência disso ou delas.

A natureza não tem história, porque segue suas próprias e imutáveis leis. A história tem uma determinação própria e diferente da natureza. Pode basear-se na ideia de perfectibilidade. Conhecer história deveria conduzir o homem a ser mais humilde, mais convicto de que é efêmero, frágil e tem o inevitável encontro com a morte. Embora possa compreender que a morte é a aurora de uma vida nova.

O motor da história é o interesse pessoal. Caso este prevalecesse indefectivelmente durante todo o tempo, a humanidade talvez já tivesse encerrado sua aventura neste planeta. Mais do que o “bom selvagem” de Jean-Jacques Rousseau, que enxergava o ser humano como ingênuo, puro e naturalmente bom, ele se mostrou mais próximo à visão de Hobbes: o homem é o lobo do homem.

Daí a justificativa para esta entidade onipotente que é o Estado. ele consegue relativizar as subjetividades, que restam suspensas por esse absoluto. O Estado se propõe ser a unidade da vontade geral essencial, resultante das vontades subjetivas.

A História do Brasil é permanentemente reescrita. Visões ufanistas contrastam com a ênfase nas perversões patrocinadas pelo Estado no decorrer dos séculos. Ela não está somente no registro oficial, coletânea dos sucessos obtidos pelos vitoriosos, mas reside em biografias e autobiografias de personagens nem sempre contemplados na documentação homologada pelo Estado.

É possível identificar o rumo da nação brasileira, de seu povo sofrido, de suas instituições ora combalidas, de suas agruras e carências, envolvidas em sonhos, ilusões e devaneios? Quem seria capaz de empolgar os brasileiros com o retorno da crença numa união nacional, acima das mesquinharias que prevalecem e que deram o tom nos últimos anos, mas conseguisse uma coesão fraterna com vistas a um porvir venturoso?

Os prognósticos nem sempre são os mais otimistas. Cumpre aos brasileiros de boa-fé e boa-vontade a semeadura propiciadora de uma colheita farta de esperanças, mas daquelas concretizáveis, não suscetíveis de diluição ante uma fria análise da crua realidade.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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