Nossa companheira: a soberba

Nossa companheira: a soberba

José Renato Nalini*

26 de março de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Os humanos são perfectíveis, ou seja, basta querer e se esforçar para continuar, enquanto vivos, rumo a um aprimoramento. Podemos sempre ser mais generosos, mais solidários, mais justos, mais honestos, mais fraternos, mais tudo de bom.

Ocorre que enquanto o caminho do bem é estreito e pleno de obstáculos, o caminho do mal é largo, fácil e convidativo. E sempre temos companhia se viermos a escolher esse trajeto.

Uma delas é a soberba. Uma excessiva auto-estima. Um desmedido orgulho das próprias qualidades, às quais se acrescentam algumas outras, que sequer possuímos. Simultaneamente, costuma-se tentar reduzir as qualidades alheias, para que as nossas sobressaiam.

Soberba é uma espécie de hipertrofia do orgulho, uma super inflação do ego, que nos faz sentir muito especiais, muito providos de atributos que ninguém mais pode ostentar.

A filha da soberba é a ambição, o desejo ilimitado de glória, honras, fortuna, poder, fama. Outra filha é a presunção, desmedida confiança em si e em seus méritos. Considerar-se merecedor de honrarias e de elogios, o reconhecimento servil de quantos vierem se aproximar da excelsa figura.

Costuma acompanhar a soberba uma prima: a hipocrisia. A falsa modéstia, a interpretação de uma conduta digna, com a exclusiva finalidade de obter encômios e potencializar a soberba.

A psicologia conhece a soberba de há muito. Adler fala no “complexo de superioridade”, Horney estudou o “orgulho neurótico” e Freud trouxe a “amplificação narcisista”. Para Freud, “todas as pulsões de ternura, de reconhecimento, de atração – pela figura materna – e as pulsões de desafio, de autonomia – pela figura paterna – são satisfeitas por aquele único desejo de ser o próprio pai”.

A partir dessa posição freudiana, o psicanalista Norman Brown afirmou que “a essência do complexo de Édipo é a aspiração a se tornar Deus, o ‘causa sui’ de Spinoza, o ‘être-em-soi-pour-soi” de Sartre”. O “Eu sou”, como Deus responde a quem Lhe pergunta quem é.

Igor Caruso, outro psicanalista, menciona a “absolutização do relativo”. De fato, somos todos relativos, imperfeitos em relação ao absoluto, o perfeito bem. Para o psicólogo e psicoterapeuta Pasquale Ionata, o verdadeiro inimigo do homem é o ego. É o que o mantém prisioneiro, capaz de praticar as ações mais abjetas e mesquinhas, o gérmen que o converte num egoísta, cruel, assassino. É o ego que impede o ser humano de superar os estreitos limites de sua consciência individual. E o ego não é senão a identificação com a minúscula parcela de nossos processos psíquicos, a causa de nossas angústias, medos, ânsias e preocupações.

Essa a verdadeira razão de imensa parte dos problemas de convivência. O ego é uma âncora que puxa para as profundidades um ser que nasceu para se alçar, para ganhar as alturas a caminho da perfeição. Por isso é que Albert Einstein dizia: “Determinamos o verdadeiro valor de um homem quando examinamos em que medida e de que modo ele chegou a se libertar do ego”.

Para subjugar o ego e combater suas patologias, há um exercício fácil e que depende de cada um de nós. Cultivar a modéstia e a humildade. Elas trazem o que poderia ser considerada a felicidade humana possível nesta peregrinação rumo ao mistério. A felicidade, mítica fênix definida por Soren Kierkegaard como “uma porta que se abre a partir de dentro; para abri-la é preciso, humildemente, dar um passo atrás”.

Nestes tempos tristes de pandemia, em que as mortes chegam mais perto, em que centenas de milhares de famílias choram suas perdas, e o País vê, atônito, o resultado de sua incúria e de falta de precaução, é muito saudável tentar sepultar a soberba. Ela ainda existe em todos os ambientes. Até naqueles em que se acredita que pessoas privilegiadas, que tiveram tudo, até estudo sofisticado, continuam a se achar mais merecedoras do que outras das vãs homenagens criadas pelo sistema. Quase sempre com a intenção de extrair qualquer proveito dessa tática. Não é possível generalizar, mas é sempre bom perguntar se as homenagens são merecidas.

O principal não é receber homenagens. O importante é merecê-las. E quem merece homenagem nestes dias sombrios é quem se arrisca para salvar vidas, para confortar aflitos, para socorrer desvalidos, para fazer algo que traga ao menos a esperança de que, depois da catástrofe, uma parte da humanidade será mais humana.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

Tudo o que sabemos sobre:

ArtigoJosé Renato Nalini

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.