Nós, peregrinos de uma pandemia

Nós, peregrinos de uma pandemia

Rebeca de Moraes*

03 de outubro de 2020 | 04h00

Rebeca de Moraes. FOTO: DIVULGAÇÃO

Recentemente, ouvi de uma pessoa que viver em isolamento social na pandemia é como ser um peregrino no caminho de Santiago de Compostela: você tem conexões profundas com um desconhecido durante o jantar, mas no dia seguinte ele não está mais lá, e você não sabe quando ou se irá revê-lo. Se acontece um reencontro ao longo do percurso, você é tomado pela alegria do inesperado, a realização de uma expectativa com a qual você sabia que não podia contar. “É dormir com o gosto amargo de não saber se vai rever pessoas que te importam”, me disse o rapaz.

Me emociona pensar que tem algo de coletivo nessa estranha sensação de suspensão das relações que a pandemia nos provoca. Fomos tomados pela aparente ambiguidade que une medo e expectativa. Ficamos longe de pais, avós, tios e filhos sabendo que, no pior cenário, se o que mais tememos se tornasse realidade, poderíamos nunca mais vê-los. O duro e inquestionável real sobre a morte com que a pandemia nos confrontou. A pandemia nos expôs à ideia cortante de que a vida é frágil.

Mas, ainda bem, as reflexões não pararam na angústia da ideia da morte. Houve também quem aproveitou desse momento para reavivar antigos desejos. Como pesquisadora de comportamento, ouvi muitos relatos sobre isso em entrevistas de campo: pessoas que tinham projeto de mudar de cidade e aproveitaram o trabalho remoto para desapegar da vida na cidade grande. Outras que se dedicaram a hobbies que andavam sem lugar na agenda. Muitas conheceram características “novas” de seus companheiros e companheiras que mesmo depois de muito tempo de convivência.

A maneira como encaramos esse combo de sentimentos que veio com pandemia mudou nossas relações e mexe com as expectativas que temos sobre elas. O que percebemos é que nossas relações, que orbitavam em desordem em torno da gente, basicamente foram divididas em dois grandes blocos: o das pessoas de quem já éramos próximos e nos tornamos ainda mais íntimos, e o daqueles de quem já não estávamos perto ou simplesmente nos afastamos nos últimos seis meses.

Percebo que as pessoas aprofundaram as relações com seus parceiros de relacionamento desde a chegada da COVID-19. Alguns poucos amigos se mantiveram nesse “núcleo duro” dos afetos. Mas convenhamos: esses são poucos. Com um vírus letal lá fora, fazer a manutenção das relações é trabalho árduo: manda um kit festa no dia do aniversário, entra em reunião do Zoom na hora do happy hour, liga pra saber se está bem, faz chamada de vídeo para comentar o filme da vez.

Longe de mim reclamar da alegria que é ter com quem compartilhar as miudezas da vida. Mas que dá trabalho, ah isso dá. Em nossa pesquisa, 85% dos respondentes disseram que durante a pandemia se distanciaram de alguém que eram próximos antes da pandemia. Assim como fortalecemos nossa rede mais próxima de afeto, nos distanciamos de algumas pessoas. Algumas relações demandam contexto e, na ausência dele, a relação se esvai. É o caso do colega de cafezinho do trabalho. O amigo de curso. Ah, o amigo da mesa de bar…

Muitas pessoas têm dito que o percurso de uma pandemia se divide vários momentos, e um deles é o trauma. Do ponto de vista da psicanálise, o trauma na vida de um sujeito se dá em dois tempos, na entrada de um estímulo “estranho” na vida, e na maneira que isso reaparece tempos depois em forma de sofrimento ou patologia. Mais de 140 mil famílias brasileiras terão lutos para elaborar nos próximos anos. Ainda à luz da psicanálise, penso também que teremos lutos de relações que se modificaram por força das condições impostas pela pandemia. Como bem disse recentemente o líder indígena Ailton Krenak, se diante do horror de tantas mortes não formos capazes de fazer nada para nos reorientar sobre aquilo que é realmente importante, de nada terá servido tanto sofrimento.

*Rebeca de Moraes, especialista em tendências de comportamento no Grupo Consumoteca

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