Nordestinos e chineses são as principais vítimas do trabalho escravo no Rio, revela Defensoria

Pastelaria e construção civil são os setores que mais utilizam mão de obra que é alvo de esquemas de tráfico de pessoas

Mateus Coutinho e Fausto Macedo

28 de janeiro de 2017 | 07h00

Nordestinos e chineses são as principais vítimas de esquemas de tráfico de pessoas para fins de trabalho escravo no Rio. A informação foi revelada nesta sexta-feira, 27, pela Defensoria Pública fluminense.
As informações foram divulgadas no site da Defensoria no Rio.

Especialistas destacaram o perfil das vítimas no estado. Pastelarias e construção civil são os setores que mais absorvem essa mão de obra.

No Rio, foram registrados 194 casos de tráfico de pessoas para fornecimento de mão de obra escrava, informou Sávia Cordeiro, da Secretaria Estadual de Assistência Social e de Direitos Humanos.

Ela participou de um curso de capacitação sobre o tema promovido pela Defensoria Pública. O evento faz parte das ações do Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, celebrado neste sábado, 28.

Destinado a quem trabalha no Sistema Único de Saúde (SUS) e no Sistema Único de Assistência Social (SUAS), o curso sobre tráfico de pessoas e trabalho escravo organizado pela defensora pública Gislane Kepe teve como maior objetivo capacitar esses profissionais para que possam reconhecer as pessoas submetidas a esse tipo de violação, acionar a rede de proteção e o resgate das vítimas.

“Um olhar atento pode ajudar a interromper uma situação de exploração”, alertou Sávia Cordeiro.

Ela citou como exemplo um chinês atendido no Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, da Secretaria Estadual de Assistência Social e de Direitos Humanos, do qual é responsável.

De acordo com Sávia, o órgão foi acionado pelo profissional de saúde que prestou socorro ao homem, em um hospital do Rio. Ele fora vítima de agressões físicas por parte de seu empregador, dono de uma pastelaria, que o submetia ao trabalho escravo.

Os chineses, segundo a especialista, são as maiores vítimas do regime escravo no Rio. “Completam esse perfil também os brasileiros oriundos do Nordeste, que são cooptados com a promessa de empregos dignos na construção civil, mas acabam sendo explorados”, informa Sávia.

Ela revelou que a maioria das pessoas traficadas no Estado são homens, têm entre 18 e 35 anos e possuem baixa escolaridade.

“O que leva muitos a serem vítimas de tráfico de pessoas é justamente a situação de vulnerabilidade na qual se encontram”, afirma.

Segundo a especialista, é importante fortalecer a rede de proteção, por isso a necessidade de as pessoas denunciarem as suspeitas ao Disque 100 e ao Disque 180, ou procurarem algum órgão do Comitê Estadual de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas e Erradicação ao Trabalho Escravo, como o Ministério Público Federal, a Defensoria Pública, o Ministério Público do Trabalho ou o Ministério do Trabalho e Emprego.

Nesse sentido, a defensora Gislane destacou a importância de a sociedade participar mais ativamente do combate ao tráfico de pessoas.

“O Rio de Janeiro ainda não está ciente da grande demanda de vítimas do trabalho escravo e do tráfico de pessoas. Isso ainda é bem recente, principalmente em relação à assistência social e à saúde. Esse curso visa justamente a sensibilizar e capacitar os profissionais para o atendimento e sobre o que fazer – afirmou Gislane.

A professora Cristina Fernandes, do Centro Integrado de Atendimento à Mulher Márcia Lyra, enfatizou que ‘a vigilância social é o que instrumentaliza o trabalho da rede de proteção’.

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