No topo dos rankings, os Masters da Mudança

No topo dos rankings, os Masters da Mudança

Leonardo Framil*

20 de março de 2021 | 06h30

Leonardo Framil. FOTO: DIVULGAÇÃO

Durante as últimas décadas, milhares de rankings de negócios foram criados no mundo para listar empresas. Alguns classificam companhias por segmentos de indústria, seguindo critérios específicos do setor, outros, de uma forma geral, pelos seus volumes de vendas, receita, número de funcionários, etc..  Eis aí outra mudança que os desafios de 2020 e a Covid-19 promovem. Liderança em tempos de incerteza exige outro tipo de métrica. Estar no topo dos rankings será resultado da capacidade de mudar, de se antecipar e da coragem de moldar o próprio futuro. Serão líderes os Masters da Mudança, que não apenas disputam market share, mas desenham com maior rapidez a visão de futuro, abraçam a mudança, e sabem que tecnologia é  vital.

Hoje, por um lado, vivemos a tão aclamada transformação digital em múltiplas dimensões, permitindo a evolução em uma infinidade de questões. Por outro, olhando para as indústrias, vemos a oportunidade de uma página em branco – uma ampla expectativa sobre o que o futuro nos trará. Liderarão aqueles que não esperarem por essa previsão, mas influenciarem a maior revolução da indústria já vivida. Mudanças devem ocorrer no todo das empresas – da força de trabalho aos dados, das arquiteturas aos ecossistemas.

Está mais do que comprovado que todo negócio é um negócio de tecnologia. O que não se confirmou foram muitas das autoavaliações otimistas de quem que nos últimos anos acreditou já estar confortavelmente na dianteira da transformação digital. Os desafios do ano que passou contrariaram essa certeza. Expuseram as limitações das soluções e normas ultrapassadas e indicaram a necessidade de se repensar processos e operações de trabalho, até então inflexíveis, cadeias de abastecimento tradicionais e fragilidades no tratamento dos dados.

A pandemia forçou o reconhecimento desse gap digital e, agora, em muitas empresas, há o esforço de comprimir a agenda de transformação.  Projetos antes desenhados para serem cumpridos de forma evolutiva, foram comprimidos em plano urgente de dois a três anos. A liderança de muitas companhias cria um núcleo digital e, assim,  amplia a capacidade de se adaptar, de inovar e de se conectar, entendendo que a tecnologia fará a diferença numa imensidão imprevisível.

São igualmente prioritárias as cadeias de suprimentos localizadas, a convergência da indústria, a virtualização em massa e o atendimento integral ao cliente, na velocidade, na conveniência e na amplitude impostas por eles.

Essa jornada apenas começou. Não temos a clareza sobre o que, no longo prazo, o futuro nos reserva. Mas temos a certeza de que a mudança é permanente e os verdadeiros líderes não só aceitarão o fato como estimularão a transformação constante. Não há liderança nos rankings de negócio sem liderança  em tecnologia. O Tech Vision 2021, nosso recém-lançado estudo anual sobre tendências da tecnologia e seus impactos nos negócios,  traz um exemplo real do impacto desse novo tipo de liderança.

A decretação de lockdown e isolamento social em todo o mundo levaram os restaurantes a uma situação crítica e a falência se tornou presente. Dados do Yelp, empresa multinacional de avaliação de estabelecimentos comerciais, comprovam que 60% dos restaurantes que anunciaram fechamento temporário em julho não suportaram a crise e, em setembro, declararam o fim das atividades permanentemente. Nos Estados Unidos, seis meses depois do início da crise, segundo dados da National Restaurant Association, quase 3 milhões de trabalhadores ficaram desempregados e o setor estava prestes a perder 240 bilhões de dólares.

Nesse cenário desolador, a Starbucks se consolidou numa liderança extremammente confortável. Sua transformação digital já estava em andamento quando a pandemia chegou. A empresa já tinha incorporado a reinvenção da experiência do consumidor e ganhou força imediata seu aplicativo móvel, que permite aos clientes personalizar seus pedidos e usar seus celulares para fazer o pagamento em transações sem nenhum contato.

Fora isso, já havia combinado pedidos do UberEats com os realizados pelo seu aplicativo e também com aqueles vindos dos clientes do drive-thru em um único fluxo de trabalho para seus baristas. Implementou também uma nova máquina de café expresso capaz de ajudar a equipe a rastrear a intensidade do uso do equipamento e prever a manutenção necessária no tempo certo para evitar paralisação. Em agosto, enquanto milhões de restaurantes fechavam, a Starbucks computava 3 milhões de novos usuários de seu aplicativo e os pedidos vindos dele, combinados com o drive-thru, representavam 90% das vendas.

Esse distanciamento entre empresas líderes e as retardatárias tende a aumentar sem agendas precisas e consistentes de transformação digital. Os líderes que investiram na convergência das estratégias de negócios e de tecnologia acumulam resultados incríveis e investirão cada vez mais, convencidos de que essa é a chave do sucesso. Os demais precisarão acelerar mais do que nunca.

Segundo o Gartner, entre 2014 e 2019, a adoção de Cloud para sistemas corporativos, se fixou em torno de 8 a 13% no segmento de manufatura. Entre os pesquisados, a perspectiva era de que esse índice chegasse a uma margem de 30 a 50% em três anos. Analistas do Gartner costumavam dizer que “os fabricantes planejavam migrar para a nuvem em três anos, nos últimos cinco anos”.

O impacto de 2020 foi brutal e fez 82% dos executivos de TI do segmento aumentarem o uso das tecnologias em nuvem como resposta urgente à crise – 66% asseguram que ampliarão o uso de cloud no curto prazo. Essa consciência é vital: cloud é o motor da transformação.

O sucesso, enfim, estará no controle de quem compreende que audácia para reimaginar é crucial e que a estratégia de negócios e a de tecnologia é uma só.

É hora de democratizar a tecnologia para toda força de trabalho, assegurando  ferramentas e skills tecnológicos, fortalecendo cada profissional, desde a base até o topo da pirâmide. Assim, todos estarão prontos para conectar ambições à tecnologia necessária, e a criar com dados e tecnologia tudo aquilo que o mundo pede.

É hora de entender que essa força de trabalho, que aprendeu a trabalhar remotamente, trouxe uma nova tarefa às empresas: a definição de como tirar proveito dessa nova habilidade, endereçando questões de segurança, fortalecendo a cultura corporativa, reconhecendo de maneira igualitária quem continuar no ambiente remoto, e, finalmente, definindo um novo modelo de liderança de pessoas e o novo propósito dos escritórios.

É hora de dar atenção ao chamado Mirrored World, ou mundo espelhado, em que investimentos em dados,  AI e as chamadas digital twins technologies dão origem a uma nova geração de negócios e inteligência. Empresas líderes implementam e combinam digital twins inteligentes por toda a organização, criando desde fábricas inteiras até ciclos de vidas de produtos.

É hora de buscar maior resiliência e adaptabilidade, encontrando novas abordagens de mercado e definindo novos padrões para os ecossistemas de indústrias. Parcerias são necessárias, parcerias digitais são vitais. Liderar negócios capazes de abrir suas portas para sistemas multidisciplinares cria um futuro mais justo e todos se fortalecem.

Finalmente, vivemos novos tempos e precisamos nos desligar do passado, das crenças e regras estabelecidas como inflexíveis graças ao sucesso alcançado um dia. Em time que ganha e na estratégia genial agora se mexe constantemente, fazendo evoluir a força da criatividade humana e amplitude da tecnologia. A hora é de abraçar a transformação e inventar o futuro. Que venha a mudança!

*Leonardo Framil, CEO da Accenture para o Brasil e a América Latina

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