No mundo ESG, afinal, o que é mais importante: ‘E’ ou ‘S’?

No mundo ESG, afinal, o que é mais importante: ‘E’ ou ‘S’?

Maurício Colombari*

30 de janeiro de 2021 | 11h50

Maurício Colombari. FOTO: DIVULGAÇÃO

A sigla ESG – Environmental, social and corporate governance, ou melhores práticas ambientais, sociais e de governança, em tradução livre – já é conhecida por gestores e empresários há um tempo. O destaque recente sobre o tema pode ser explicado por uma série de fatores ligados a cada uma das áreas que o termo abrange, como, por exemplo, a preocupação quanto aos impactos das mudanças climáticas, o custo social da pandemia global e escândalos corporativos que demandam a constante revisão sobre as práticas de governança corporativa.

Considerando que estas boas práticas já estão incorporadas ao dia a dia de muitas organizações, uma pergunta recorrente é o que é mais importante no mundo ESG, os aspectos ambientais ou os aspectos sociais? A resposta mais óbvia é que esses dois pilares são igualmente importantes, e que, portanto, as organizações devem pautar o processo decisório levando em consideração os impactos dos negócios em ambos.

Cito o exemplo da Fundação Amazonas Sustentável, que tem como missão a valorização da floresta em pé como forma de preservação da biodiversidade, e a valorização das comunidades por meio do desenvolvimento sustentável. Esse é um caso prático de um modelo de negócios que harmoniza os impactos sociais e ambientais em um dos temas mais relevantes no momento, que é a preservação da Amazônia. No entanto, na prática as coisas não funcionam sempre assim. Os líderes empresariais se deparam constantemente com dilemas que envolvem a priorização de aspectos de ESG, assim como impactos econômicos das decisões. O mundo ideal, no qual as decisões de negócios produzem impactos sociais ambientais e econômicos, quase nunca é uma realidade.

A pergunta que fica é como, então, as organizações podem considerar todas essas variáveis no processo decisório? O primeiro passo é uma mudança cultural importante de como as decisões são tomadas. É importante perceber que a mensuração do sucesso de um negócio hoje vai muito além do retorno financeiro esperado. O ambiente atual requer uma visão mais holística, que considere o entendimento profundo dos riscos, as oportunidades e quais serão os impactos para a sociedade. O principal desafio nesse processo é a dificuldade de mensurar os impactos de fatores não financeiros, haja visto que, na maioria das vezes, essas informações não estão disponíveis. Nesse particular, é fundamental que as organizações contemplem os impactos das decisões de negócios na comunidade, nas relações de trabalho, na qualidade do ar e da água, na geração de impostos, entre muitos outros fatores a serem considerados.

O aprofundamento dessas questões viabiliza a criação de cenários que consideram os impactos em cada um dos pilares, e que, portanto, permitem tomadas de decisão mais informadas pelas organizações. Nesses cenários, que anteriormente apenas levavam em conta fatores econômicos para uma decisão de negócios, como, por exemplo, a existência de incentivos fiscais para a definição da instalação de uma unidade fabril, passam a ser considerados outros aspectos, como a matriz energética, a diversidade da força de trabalho e os impactos na comunidade.

Ao considerar não somente os impactos econômicos de suas decisões, mas incorporando as questões ambientais e sociais no processo decisório, os líderes empresariais poderão ter uma visão mais clara do impacto da estratégia e dos investimentos em cada um desses pilares. Por meio desse processo, a resposta para o dilema entre o “E” e o “S” ficará mais clara, pois a resposta está diretamente relacionada ao impacto causado a cada uma das dimensões. Ao administrar os trade-offs de uma maneira mais bem informada, os líderes poderão tomar as melhores decisões para o negócio e para todas as partes interessadas.

*Maurício Colombari é sócio da PwC Brasil

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