No mesmo mar, porém não no mesmo barco

No mesmo mar, porém não no mesmo barco

Fabiano Dantas*

12 de dezembro de 2020 | 04h00

Fabiano Dantas. FOTO: DIVULGAÇÃO

É de conhecimento geral que uma instabilidade nos preços, ou seja, um ambiente com aceleração inflacionária é algo que prejudica a todos no país. Entretanto, é importante frisar que os impactos causados por um ambiente inflacionário não são distribuídos de maneira equivalente ou igualitária entre os mais e os menos abastados e isso acontece por diversas razões. Uma delas, e que será discutida neste texto, é a composição dos gastos familiares que varia bastante a cada faixa de renda.

Um estudo apresentado pelo Banco Central (BC) em outubro demonstrou, com base nos microdados da Pesquisa do Orçamento Familiar (POF) 2017-2018, que os impactos da inflação são substancialmente maiores para as famílias com renda de 1 a 3 salários mínimos (SM), que apresentou um acumulado no ano até setembro de 2,29%, do que para as famílias que ganham de 10 a 40 salários mínimos (SM), que apresentou 0,32% de inflação acumulada de janeiro a setembro de 2020.

Essa grande diferença se dá pelo fato de que as famílias com os salários mais baixos tendem a consumir uma parcela maior de sua renda com alimentação, que é o grupo que mais tem pressionado a inflação, além de ter ocorrido uma variação de maneira mais acentuada nos preços de produtos e serviços consumidos pelas pessoas desta faixa de renda.

Para que fique mais claro a diferença existente no nível de comprometimento de renda com a alimentação no domicílio entre as faixas de renda podemos observar os dados apresentados por este estudo do BC. Famílias que recebem de 1 a 3 SM gastam em média 19,72% da sua renda com este grupo, já para as famílias com renda entre 10 e 40 SM o percentual é de 10,62%. Ao observarmos os dados de maneira regional essa diferença pode ser ainda mais discrepante, como por exemplo no Nordeste com 22,5% e 9,4% para 1 a 3 SM e 10 a 40 SM respectivamente.

Um fato que pode trazer ainda mais preocupação para este quadro é exatamente o comportamento da inflação, principalmente nos últimos meses. Por conta da pandemia e de todas as alterações que ela trouxe no funcionamento da economia mundial, a grande pressão dos preços se encontra nos insumos que servem de base para a cadeia produtiva do país e ao observar os dados de aumento destes produtos é possível ver que o repasse para o consumidor ainda pode estar por vir. Um levantamento feito pelo Ibre FGV demostra que a pressão dos preços ao produtor é consideravelmente maior do que para o consumidor.

Ao observar os grupos alimentação em domicílio, artigos de residência e vestuário é possível perceber que boa parte da mudança de preço a que o produtor foi exposto não foi repassado ao consumidor. Por exemplo, o aumento ao produtor no grupo de alimentação em domicílio foi de 25,4% enquanto para o consumidor foi de 18,4%. No grupo de artigos para residência a diferença é ainda maior, 10,1% para o produtor contra 2,4 para o consumidor e no grupo de vestuário, enquanto o preço para o produtor apresenta alta de 4,5% para o consumidor há uma queda de 1,5%. Produtos como o arroz e o óleo de soja foram muitos pressionados apresentando um aumento de mais de 50% para consumidor. Entretanto esse aumento foi ainda maior para o produtor, no caso do arroz por exemplo ele foi de 120%, e ainda pode gerar alguns repasses.

A forte desvalorização cambial, o Real foi uma das moedas que mais perdeu valor frente ao dólar em 2020 (em torno de 30%), assim como o comportamento distinto da demanda internacional por conta da pandemia, que leva a um aumento do preço em dólares, podem ser apontados como os principais motivos para este comportamento apresentado pelos preços ao produtor. Sabemos então que há um forte componente de custo na inflação brasileira. Além disso, não é possível descartar uma ampliação dos repasses no momento que a atividade econômica voltar a crescer, com a diminuição das restrições sociais e a liberação de alguns serviços.

A volta da “rotina” de consumo das famílias vai acabar dependendo bastante do que acontecerá em 2021, isso porque a indicação, pelo menos por enquanto é de uma combinação de aumento de preços com uma queda na renda. Produtos que são indispensáveis e que estão ligados a subsistência e, consequentemente, são pouco elásticos ao preço, acabam por se encaixar de alguma maneira no orçamento familiar. Entretanto, com o fim do auxílio emergencial, se não houver uma recuperação na atividade econômica e no emprego, retomada do consumo pode não acontecer da maneira que é esperada e assim complicar ainda mais a situação no mercado de trabalho e na renda do trabalhador brasileiro.

Desta maneira, ao observarmos o cenário que se apresenta para os próximos meses, com aceleração inflacionária, fim do auxílio emergencial e retomada tímida no emprego, o ano de 2021 pode se apresentar tão desafiador, ou mais, do que 2020, principalmente para as famílias brasileiras na faixa mais baixa de renda.

*Fabiano Dantas, professor de economia da UNISOCIESC

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.