No mês contra o tabagismo, fica o alerta para o diagnóstico precoce do câncer de bexiga

No mês contra o tabagismo, fica o alerta para o diagnóstico precoce do câncer de bexiga

Marcelo Wroclawski*

01 de junho de 2022 | 03h00

Marcelo Wroclawski. FOTO: DIVULGAÇÃO

No Brasil, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer, o INCA, o câncer de bexiga é a 7ª neoplasia mais comum em homens, atingindo cerca de 7,5 mil anualmente. Nos Estados Unidos, por exemplo, corresponde a quase 5% de todos os tumores diagnosticados. No mundo, de acordo com levantamento do Global Cancer Observatory, a incidência do câncer de bexiga supera 550 mil novos casos, por ano, e se estima que mais de 1,7 milhão de pessoas estejam vivas enfrentando a batalha contra este câncer.

Sabe-se que a maior incidência de casos é em homens, cerca de três a quatro vezes mais do que em mulheres. Isso ocorre, provavelmente, porque indivíduos do sexo masculino estão, ou estiveram, mais expostos aos fatores de risco, como tabagismo e à exposição aos compostos químicos no ambiente de trabalho. Mais de 70% dos tumores são diagnosticados após os 65 anos, e a idade média para o diagnóstico é aos 73 anos. Pessoas de raça branca têm aproximadamente duas vezes mais risco de desenvolverem câncer de bexiga.

No mês de combate ao tabagismo, o chamamento para alertar a população sobre os sinais e sintomas que levam à detecção precoce dessa enfermidade, é importante, além de apontar que o tabaco é o principal fator de risco para o aparecimento da doença. Sim, o tabagismo é o fator de risco mais importante para detectar o câncer de bexiga. Isto ocorre porque, tanto no cigarro quanto em sua fumaça, há mais de sete mil substâncias químicas. Sabemos que, pelo menos 70 delas, são carcinogênicas. Isto é, favorecem o aparecimento de tumores e, consequentemente, danos às células e seus genes. Estima-se que o hábito de fumar seja responsável por cerca de 50% dos tumores vesicais e fumantes tem de quatro a sete vezes mais chance de desenvolver esta neoplasia.

No caso da bexiga, o risco é aumentado porque estes compostos químicos deletérios, ao serem inalados, são absorvidos pelo pulmão, caem na corrente sanguínea e serão filtrados pelo rim, que produzirá uma urina “contaminada”. Como a bexiga é um reservatório de urina, estas substâncias passarão horas em contato com a superfície vesical, propiciando o ambiente adequado para causar os danos celulares e o consequente aparecimento de tumores. Além disso, o câncer de bexiga também pode causar alteração do padrão urinário, provocando sintomas chamados de armazenamento, ou irritativos, que são o aumento da frequência com que o indivíduo urina, tanto de dia quanto de noite, a necessidade de urinar com urgência, além de dor e queimação ao urinar.

Entretanto, em alguns casos, o tumor pode provocar sangramento microscópico, aquele que não é visível e só é identificado pelo exame de urina. Qualquer sangramento urinário, quer seja visível, quer seja observado como alteração no exame, não deve ser considerado normal e precisa ser investigado pelo médico, mesmo que ocorra de forma intermitente. Estes sinais e sintomas são o gatilho para que o paciente procure com brevidade o seu urologista ou, o sistema público e os serviços de atenção primária à saúde. Já um cenário de doença mais avançada, o paciente pode apresentar dor nas costas e emagrecimento.

Além do tabagismo, consideramos os fatores de risco ocupacionais: compostos químicos chamados aminas aromáticas, dentre outros, favorecem o aparecimento da doença. Então, trabalhadores de alguns setores da indústria estariam em maior risco, como os da tinta, de corantes e da borracha. Medicamentos: um quimioterápico chamado ciclofosfamida aumenta o risco de câncer de bexiga. Problemas crônicos da bexiga: Situações que causam inflamação na bexiga estão correlacionadas com risco para câncer de bexiga. Dentre elas, infecções urinárias constantes e, principalmente, a presença de pedras na bexiga e infecção por esquistossomose: é um tipo específico desse parasita, o Schistosoma haematobium, comum principalmente no norte da África, está ligada ao desenvolvimento do câncer de bexiga. Vale lembrar que esse não é o parasita frequentemente encontrado no Brasil, nas chamadas lagoas de coceira, que causam a popular Barriga D’água.

Importante dizer que, quem já teve uma vez, aumenta o risco de ter novamente a doença, uma característica importante do câncer de bexiga. Mais de 1/3 dos pacientes apresentarão recidiva em cinco anos, e o risco de a enfermidade voltar depende de algumas características do tumor inicial. Portanto, é extremamente importante que, uma vez diagnosticado e tratado, o paciente mantenha posteriormente o seguimento periódico estabelecido por seu urologista. Como não existe exames de rotina para diagnóstico do câncer de bexiga, para o rastreamento desta neoplasia, não temos nenhum exame específico, como um marcador tumoral, assim como é o PSA para o câncer de próstata, ou exame de imagem, como a mamografia para o câncer de mama.

Daí a importância de atentarmos para os sinais e sintomas e evitarmos os fatores de risco. A boa notícia é que, quando a doença ainda não invadiu a musculatura da bexiga, o que felizmente ocorre em aproximadamente 75% dos casos, a sobrevida neste cenário é superior a 95% em cinco anos. Uma vez suspeitado, o paciente deverá ser submetido a um procedimento chamado Cistoscopia, que é uma endoscopia das vias urinárias, assim como é feita a endoscopia digestiva para problemas do estômago ou a colonoscopia para questões intestinais. Na cistoscopia, por meio da uretra (canal da urina), introduz-se uma câmera que identificará uma eventual lesão no interior da bexiga.

Na maioria das vezes, neste mesmo ato, poderá se realizar a ressecção do tumor, que vai para análise do patologista. Com isso saberemos se é ou não um tumor maligno, o tipo histológico (qual tumor maligno) e o estadiamento local, ou seja, até qual camada da bexiga o câncer acomete. Se a lesão não invadir o músculo da bexiga muitas vezes esse procedimento já é curativo e, em alguns casos, só é necessário complementar a terapêutica com instilações de algumas substâncias na bexiga, durante o seguimento pós-operatório. Já quando o tumor invade a musculatura da bexiga, o câncer é mais avançado e o tratamento precisa ser mais agressivo, envolvendo muitas vezes a associação de quimioterapia e a necessidade de remoção da bexiga. Aproximadamente 1/3 dos casos são diagnosticados nesta fase.

A dica valiosa é parar com o tabagismo, pois em dez anos, o risco de câncer de bexiga cai pela metade. Essa seria a principal prevenção. Além disso, outras medidas são: proteção adequada no ambiente de trabalho em que há exposição às aminas aromáticas, beber muito líquido e uma dieta rica em frutas e vegetais.

*Marcelo Wroclawski é presidente da Sociedade Brasileira de Urologia (seccional SP)

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