No mercado financeiro, nem tudo o que cai é faca

No mercado financeiro, nem tudo o que cai é faca

Gustavo Aranha*

22 de maio de 2019 | 07h00

Gustavo Aranha. FOTO: DIVULGAÇÃO

Um dos maiores desafios quando se investe em ativos com volatilidade – por exemplo, ações ou fundos de ações – é conseguir agir de forma fria e racional nos momentos de crise em que essas ações ou o fundos caem. Em conversas com os amigos, é senso comum que para se investir bem é preciso “comprar barato e vender caro” e que as “crises trazem oportunidades”.

Mas quando a crise real vem, vem com ela notícias ruins, perspectivas ruins, analistas na TV dizendo que tudo vai piorar e, como resultado, muitos ativos ficam mais baratos, inclusive as ações das empresas que você tem e as cotas do fundo de ações em que investiu. Ótimo! vamos aproveitar para comprar mais, certo? Comprar barato, aproveitar as oportunidades que a crise trouxe! Nesses momentos, o que mais escuto dos investidores é “Gustavo, não vou pegar a faca caindo!”.

Nos meus 20 anos de carreira em investimentos, essa frase me fez refletir muito e já me peguei questionando inúmeras vezes em como esse fundo ou empresa se transformou em uma faca. A minha conclusão é que não é na crise que esse ativo se transformou numa arma branca pronta para ferir seu portfólio, mas, sim, no momento em que você decidiu investir!

Tente se lembrar da última vez que alguém trouxe uma ideia de uma empresa para você comprar as ações ou um fundo para investir. Quantas perguntas você fez para a pessoa que te trouxe a ideia (seu assessor de investimentos, seu influenciador digital, seu parceiro de tênis ou mesmo seu cunhado) antes de perguntar quanto essa ação ou fundo subiu no ano?

E, caso você consiga fazer várias perguntas sobre a empresa ou gestora sem se interessar pelo retorno (parabéns!), quanto vai demorar até seu interlocutor responder, já sem paciência (especialmente no caso do cunhado): “ah, não sei, mas olha só quanto tá subindo no ano!”?

Vou um passo além: Você seria capaz de investir num fundo ou numa ação sem saber quanto eles renderam até hoje? Tá bom, concordo, exagerei, mas pense nisso.

Bom, voltando à conversa com o amigo do tênis, se você ou ele cansam rapidamente de trocar bolas sobre o investimento e logo terminam o ponto, digo, o papo, falando sobre o retorno deste ativo, ele acabou de se transformar em uma faca!

Minha conclusão é que sempre que o retorno passado for um fator importante em uma decisão de investimentos, uma faca foi adicionada ao portfólio. Conheço clientes que têm uma belíssima coleção de facas, prontas a se revelar em suas carteiras.

Se a performance passada é importante, assim que ela some, qual o sentido de ter aquele fundo ou empresa mesmo? E, ainda pior, qual o sentido de investir agora se o retorno recente é ruim?

Por isso, acho muito importante deixar o mais longe possível a opinião que se tem de um investimento da sua dinâmica de preços. Como? Estudando e questionando o investimento de forma qualitativa e procurando motivos para investir (ou não investir) que não o retorno!

A empresa tem um negócio robusto, que gera lucros e consegue proteger esses lucros da concorrência?

O time de gestão da empresa é bom, experiente e alinhado com o acionista? Eu entendo como e onde essa empresa gera seus lucros? A gestora tem um time qualificado e alinhado com os clientes? Tem um processo de investimento bem definido? Eu consigo entender de forma clara como eles investem seus recursos?

Se o investimento for feito com um racional que não o retorno, quando o valor desse investimento cair, ao invés de uma faca caindo, o que estará vendo é um bom ativo ou fundo (desde que todos os motivos qualitativos que balizaram o investimento em primeiro lugar continuem presentes) que ficou mais barato do que antes.

Entendi, Gustavo, invisto no que acho bom qualitativamente e não olho mais, certo? Errado! Olhe sim para seus investimentos, não terceirize essa função para ninguém! Mas não olhe para o retorno e, sim, para os motivos que te fizeram querer investir e, se eles continuarem presentes, siga em frente, com a tranquilidade de quem sabe que nas crises muitos ativos caem, mas nem tudo que cai é faca!

*Gustavo Aranha é sócio responsável pela área Comercial da GEO Capital, gestora brasileira com foco em investir, exclusivamente, em ações globais fora do País. Foi sócio e líder da área de produtos e serviços de Private Banking do Credit Suisse Hedging-Griffo. É bacharel em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas e especialista em Business Economics pela mesma faculdade

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