‘No lugar de militares reformados, poderiam chamar jovens recém-formados’, defende advogada previdenciária

‘No lugar de militares reformados, poderiam chamar jovens recém-formados’, defende advogada previdenciária

Fátima Bonilha, com ampla experiência em causas ligadas à Previdência, avalia que contratação de civis ajudaria a diminuir os índices de desemprego e acha difícil que situação se normalize em seis meses, como prevê o governo

Fausto Macedo e Pepita Ortega

16 de janeiro de 2020 | 05h30

Fátima Bonilha. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Em meio à extraordinária corrida à Previdência, em busca de aposentadorias, pensões e auxílios, o País vê o governo anunciar o recrutamento de 7 mil militares para reforçar os quadros do INSS e tentar debelar tamanha demanda – 980 mil brasileiros, a cada mês, protocolam requerimentos dessa natureza. Nem todos se empolgam com a estratégia. É o caso de Fátima Bonilha, uma advogada especialista em ações previdenciárias.

“Toda ajuda é bem-vinda”, ela diz. “Mas acho que, no lugar de militares reformados, poderiam ter chamado jovens recém-formados. Diminuiria o desemprego e ajudaria a Previdência.”

Trinta anos de advocacia dedicada à preservação de direitos dos segurados dão à Fátima Bonilha autoridade para debater a Previdência e suas reformas.

Com escritório em Santos, no litoral paulista, a advogada não esconde o ceticismo.

Indagada sobre as medidas do governo Bolsonaro para simplificar os procedimentos previdenciários, ela é taxativa. “Nunca vi governo algum fazer algo para facilitar a vida do segurado. Ao contrário, só vejo criarem mais e mais exigências, burocracia.”

Sobre a estimativa de seis meses do Palácio do Planalto para ‘normalização’ da enxurrada de requerimentos que congestionam os escaninhos do INSS, Fátima Bonilha abre os olhos dos segurados.

Ela é contundente. “Gostaria de acreditar que será possível, mas, pela movimentação dentro das agências do INSS, acho muito difícil.”

LEIA A ENTREVISTA DE FÁTIMA BONILHA AO ESTADÃO

ESTADÃO: O governo recrutou 7 mil militares da reserva para reforçar equipes do INSS na análise de requerimentos. É uma boa estratégia?

ADVOGADA FÁTIMA BONILHA: Toda ajuda é bem-vinda, tendo em vista que o caos que vem se instalando há alguns anos culminou na reforma da Previdência, que deu início a uma corrida desenfreada para aposentadoria do setor público e privado. Cada um tentando defender o seu, gerou um grande afunilamento. Falta gente para atender e muitas pessoas aguardam o pagamento de seus benefícios. Ao tentar uma medida cautelar na justiça, esbarra-se exatamente no mesmo problema: falta servidor, sobra processo. Acho que, no lugar de militares reformados, poderiam ter chamado jovens recém-formados. Diminuiria o desemprego e ajudaria a Previdência.

ESTADÃO: Dois milhões de contribuintes esperam por uma resposta da Previdência sobre pedidos de aposentadoria, pensão, auxílios e benefícios a idosos e deficientes de famílias com renda menor que R$ 250 mensais. Por que chegou a esse ponto?

FÁTIMA BONILHA: Houve uma correria antes da reforma. O que já tinha uma espera razoável perdeu o controle com a correria de pessoas em vias de aposentadoria que não queriam ser vítimas das mudanças de regras.

ESTADÃO: Segundo o governo, 980 mil pedidos de aposentadoria dão entrada na Previdência a cada mês. O que explica tamanha ‘corrida’?

FÁTIMA BONILHA: A necessidade. O desemprego. A necessidade de uma renda extra para poder arcar com as pesadas despesas da vida cotidiana. Fora isso, quem tinha direito antes da reforma não quis ver como iria ficar e foi atrás da aposentadoria.

ESTADÃO: Desde novembro, quando a reforma da Previdência passou, nenhuma aposentadoria seguindo as novas regras foi autorizada. A reforma, afinal, vai dar certo? Para quem?

FÁTIMA BONILHA: Obviamente, a pressa era para a reforma, mas não para conceder a aposentadoria e/ou outros benefícios. Evidentemente , não prepararam o sistema (computadores) e jogaram com a vida das pessoas. Estou lidando com um caso em que o auxílio-doença teve sua prorrogação indeferida, para ser reimplantado depois da reforma e, com isto, ter a redução do valor. Pura maldade. Para tentar modificar só na Justiça, que é outra tragédia.

ESTADÃO: Escritórios de advocacia que atuam nessa área se queixam de exigências ‘absurdas’, supostamente com intuito de ‘reter’ novas concessões. É por aí?

FÁTIMA BONILHA: Sim, é bem por aí. As exigências só aumentam. Só criam maiores dificuldades. Há sempre um embaraço entre o que orientamos e o que vem de exigência depois. Muita insegurança para lidar com as questões.

ESTADÃO: O governo promete simplificar os procedimentos. As medidas anunciadas vão fazer a fila andar?

FÁTIMA BONILHA: Nunca vi governo algum fazer algo para facilitar a vida do segurado. Ao contrário, só vejo criarem mais e mais exigências, burocracia. O plano geral é deixar o segurado morrer, pagar menos para o cônjuge sobrevivente e torcer para que este nem exista.

ESTADÃO: O governo estima em seis meses o prazo para ‘normalizar’ a enxurrada de pedidos. Qual a sua avaliação?

FÁTIMA BONILHA: Gostaria de acreditar que será possível, mas, pela movimentação dentro das agências do INSS, acho muito difícil.

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