No lodo, as flores luminosas da cultura

No lodo, as flores luminosas da cultura

José Renato Nalini*

15 de maio de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Em tempos sombrios, de negação da ciência, desprezo à cultura, incentivo à destruição da natureza e cultivo do ódio e da intolerância, chega-se a pensar em definitiva queda civilizatória. É preciso encontrar algum sinal denotador de que nem tudo está perdido e de que há esperança para o gênero humano.

Uma instigante ideia localiza-se em Nietzsche. Ele busca na Antiguidade a certeza de que o mal pode servir a uma cultura. No ensaio “O Estado Grego”, ele parte da concepção de Hobbes da guerra de todos contra todos. O estado natural da convivência humana é a ocorrência de terríveis tempestades de guerra entre os povos. Todavia, “nos intervalos, a sociedade terá tempo e oportunidade de produzir sob o efeito concentrado para dentro daquela guerra as flores luminosas do gênio da cultura”.

Em síntese, na visão de Nietzsche, a guerra periódica como uma emergência, “como um novo submergir no elemento heraclítico-dionisíaco, é indispensável para que floresça a cultura. A cultura precisa do subterrâneo cruel, ela é o belo fim do terrível. A relação necessária entre campo de batalha e obra de arte revela a verdade sobre a cultura”.

Se isso tem algo de verdade, então é promissora a perspectiva para o Brasil. Elementos de verdadeira guerra estão no ar. Guerra contra a natureza, com o desmatamento estimulado, desmanche das estruturas de fiscalização, derrubada dos esquemas protetivos da biodiversidade, entrega de terras públicas para a grilagem e para a exploração mineral em áreas demarcadas para os indígenas.

Estes são eliminados por criminosos, sem que haja a punição dos culpados. Projetos de lei querem anistiar os invasores de áreas protegidas e de conservação.

Guerra declarada contra a ciência, contra os cientistas, contra as organizações que foram preordenadas a coordenar ações de prevenção contra pestes, pragas e epidemias. Guerra a quem se propõe criticar o Brasil por sua guerra de narrativas, nas teorias conspiratórias, na ridicularização de quem se atreva a dizer que o Estado é um pária em diversos setores.

Guerra de narrativas, com a polarização de fanatismos e a disseminação de ofensas, difamações, injúrias e outros atentados contra a honra de autoridades ou de pretensos inimigos.

Guerra aberta contra a vacinação, considerada essencial para a retomada da economia, contra o distanciamento social, contra as medidas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde como as únicas possibilidades de enfrentamento da Covid19.

Guerra contra o controle de gastos, contra o orçamento racional, pois dividido e partilhado por aves de rapina, insensíveis para as reais necessidades de uma economia em frangalhos. Em lugar das reformas política, administrativa, tributária, a preocupação com eleição e com a grande praga da reeleição.

Guerra contra os jovens que são assassinados e passam para as estatísticas sem que haja comoção nacional, assim como a perseguição aos indígenas – que eram os verdadeiros donos do território e foram rechaçados de seu milenar habitat – contra as crianças, contra os idosos, contra as minorias. Guerra de versões sobre os confrontos entre infratores e policiais, guerra aberta contra o desarmamento, para fomentar as pequenas guerras íntimas que sempre acabam com homicídios ou feminicídios. Ou, infelizmente, com infanticídios, cada vez mais frequentes.

Pode ser um exagero detectar em todos os problemas brasileiros essa visão de guerra. Mas não é muito diferente a situação em que o Brasil das múltiplas crises mergulhou. Começou com crise ética, a desaguar em crise moral, depois crise econômica e, finalmente, a crise sanitária.

Não falta lodo, portanto, tristeza diante do meio milhão de mortos pela peste, número que se alcançará em breve, pelo índice dos óbitos e das contaminações diariamente noticiadas. Nem falta sofrimento ao se pensar que o “celeiro do mundo”, com a mais possante agroindústria do planeta, permita que milhões passem fome.

Se essa é a condição nitzscheana para a produção de cultura e arte, então assistiremos a um estrondoso boom de belas obras em todos os setores. Pois não falta criatividade a este povo tão exposto às intempéries políticas, mas que resiste, tal e qual já se definiu o sertanejo: antes de tudo um forte.

Que venham músicas, pinturas, esculturas, fotografias, filmes, peças teatrais, poesias, contos, romances, ensaios, teses e dissertações, livros a mancheia, performances, instalações, happenings, memes, tik-toks, lives e tudo o mais que puder exprimir a beleza que vai dentro d’alma de um brasileiro que não desiste.

Que teima em sonhar, em esperar por dias melhores, com o sonho de ainda morar naquela terra que um dia foi verde, onde há palmeiras, em cujo topo canta o sabiá.

Não seja por falta de crueldade que não se produza o belo e se faça florescer a cultura nesta inspiradora Pátria.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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