No inferno cabe bastante gente

No inferno cabe bastante gente

Debora Balzan*

21 de novembro de 2019 | 14h10

Debora Balzan. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Exponho algumas coisas do meu trabalho não para desabafar ou por raiva. Sinto-me na obrigação de dar meu testemunho com relação à execução das penas, pois faz parte da minha rotina há muitos anos e também porque percebo que as pessoas são muitas vezes levadas a sentir pena dos criminosos quando presos, já que bandidólatras e quase todo o staff midiático é de humanizar monstros ou de colocar a culpa fora da pessoa do criminoso, como se ele fosse um ingênuo que não soubesse o que faz, tudo absolutamente em consonância com o pacote da esquerda.

Nosso país nas últimas décadas tem tradição de escolas abolicionistas e libertárias. Importou-se o que havia de pior no exterior, “ídolos doutrinários” (só aqui os são), mas que nos seus países de origem nunca foram sequer ouvidos, imaginem levados a sério. Já se sabe da mentira do superencarceramento, do pouquíssimo tempo que os criminosos ficam presos (quando isso acontece, já que a imensa maioria não é pega) e desconhecimento da verdade de que criminoso preso custa muito menos para a sociedade, fazendo só assim a verdadeira segurança  pública e justiça.

No concreto, no dia a dia, quase tudo de mentira. Tudo isso para dizer aos meus amigos que eu não gosto do que eu faço e que meu trabalho é muito frustrante e nada recompensador, mas não saio dele para tentar ser mais feliz; ao contrário, sei que tudo continuará acontecendo e eu não poderei fazer nada. Longe de me achar, ao contrário. Ele me põe no meu lugar perante Deus, ajuda-me a ser gente e me fortalece. Entendo que a esperança só existe se com trabalho; do contrário, uma imaturidade. Odeio bandidos, odeio o nicho bandidólatra, mas sou daquelas que vê o trabalho como obrigação e que não acredita em “fazer o que se ama” ou o “que dá prazer”, mas aquilo que tem de ser feito. Há no meu meio profissional muitos que sofrem pelos bandidos.

Impressionante como essa área atrai simpatizantes deles, mas que em momento algum passa nas suas cabeças a dor das vítimas, dos seus familiares e o dinheirão público que o Estado gasta ao injetar todos os dias criminosos nas ruas precocemente (progressões para o semiaberto e/ou pouquíssimo tempo presos em relação ao mal cometido ou à periculosidade).

O custo da impunidade e da soltura é altíssimo para as vítimas e para os cofres públicos. O País é desacreditado. As pessoas não têm a mínima qualidade de vida por conta do medo ou da dor. Assim, se minha felicidade dependesse de eu amar o que faço para viver, estaria condenada à total infelicidade. Sou feliz pelos meus amigos reais e virtuais (eles também são reais e importantes para mim), por eu suportar não ser a bacana que entende tudo e todos. As grandes questões nessa área não são jurídicas, mas morais. Não estou nem aí para essa gente. Minha conta é apenas vertical, para o alto. Tenho horror a bandido e a quem com eles têm empatia. Este texto foi escrito após uma tarde de 16 audiências para apuração de faltas graves (fugas, recapturas com novos delitos praticados no semiaberto, rompimento de tornozeleira eletrônica, ou todos os três juntos), e que houve mais de uma dezena de recursos pelo Ministério Público, por não reconhecimento das faltas ou por pouca sanção. Detalhe: quase todas as designações dessas audiências também resultaram de recursos anteriores pela  promotoria, o que significa que muito ficaria por isso mesmo, o que é muito comum em execução penal. Falta-nos muitas vezes perna. O que me acalmou no final desse dia foi lembrar que no inferno cabe bastante gente.

*Debora Balzan, promotora de Justiça – RS

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