No discurso eleitoral, a corrupção só aparece na hora da acusação

No discurso eleitoral, a corrupção só aparece na hora da acusação

Kleber Carrilho*

04 de maio de 2022 | 05h00

Kleber Carrilho. FOTO: INAC/DIVULGAÇÃO

As eleições estão se aproximando e, a cada dia, a disputa pelo voto fica mais nítida. Nos diversos cargos para os quais vamos escolher novos (ou ainda os mesmos velhos) titulares, a relação com a corrupção poderia ser propositiva, mas em geral não é.

Faça um exercício simples: observe cada vez que a palavra corrupção é citada nos discursos e nas redes sociais dos principais candidatos aos cargos em disputa.

É provável que você encontre esses momentos, em que se fala sobre a corrupção e suas mazelas, com textos e vídeos sobre o tema, mas quase sempre como forma de acusar os concorrentes e os adversários. Poucas são as vezes em que há proposições de medidas concretas para que a corrupção diminua.

Isso, na minha percepção, é explicável por um motivo principal: não há projetos nem objetivos políticos que se conectem ao fim da corrupção. Em um ambiente cada vez mais focado no presente, sem construção de estratégias políticas de longo prazo, e principalmente sem a visão de um país para as próximas gerações, o tema da corrupção, do desvio do dinheiro público, do mau uso dos recursos somente serve para acusar.

O atual presidente foi eleito na esteira das acusações sobre a corrupção dos governos anteriores. De acordo com o que se dizia em 2018, esse era o principal motivo para a crise econômica e para a necessidade urgente de substituir a “velha política”, que tinha como seu principal representante o famoso “centrão” no Congresso Nacional, cooptado pelas lideranças do Partido dos Trabalhadores.

Porém, passados quase quatro anos da eleição de Bolsonaro, não há nada notável no combate à corrupção. Nem mesmo a passagem pelo Ministério da Justiça e da Segurança Pública do ex-juiz Sérgio Moro, o principal personagem da Operação Lava Jato, fez com que houvesse propostas reais. O que era discurso continuou sendo discurso, principalmente quando o presidente diz, insistindo repetidas vezes, que não há corrupção no seu governo, mesmo com indícios diários no noticiário, inclusive com pessoas do seu círculo mais íntimo, com rachadinhas, compras de imóveis suspeitas, saques à boca de caixas dos bancos, emissão de cheques e movimentações questionáveis em lojas de chocolate.

Por outro lado, os principais adversários do atual governo também ocupam seus espaços midiáticos somente para acusar, para tentar mostrar que, no atual governo, há, sim, corrupção.

E sobre projetos para combatê-la? Pouco, quase nada. Pode até ser que haja, nas discussões internas dos projetos políticos, gente competente trabalhando com soluções viáveis, mas não é o que aparenta no dia a dia das redes e das falas das lideranças nos eventos e na imprensa.

Portanto, cinco meses antes das eleições, podemos prever que é muito provável que os debates para os cargos dos executivos estaduais e para o federal, além das apresentações dos candidatos ao legislativo para o eleitorado, sejam novamente frágeis na proposição de formas para combater a corrupção. Fortalecer a ação das polícias, do Ministério Público, garantir que haja investigação e punição quando há suspeitas e comprovações, nada disso fará parte das propostas. Ou, se fizer, não é o que vai “lacrar” nas redes.

Mas, claro, a palavra corrupção vai continuar a estar presente, como forma de acusação. O que também vai ser usado principalmente para tirar o foco da própria corrupção e pintar a do outro como “a verdadeira corrupção”.

*Kleber Carrilho é professor e doutor em Comunicação Social e cientista social pela Universidade de São Paulo

Este texto reflete única e exclusivamente a opinião do(a) autor(a) e não representa a visão do Instituto Não Aceito Corrupção

Esta série é uma parceria entre o blog e o Instituto Não Aceito Corrupção (Inac). Acesse aqui todos os artigos, que têm publicação periódica

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