No compasso do corixo

No compasso do corixo

João Linhares*

28 de novembro de 2021 | 06h00

João Linhares Júnior. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Onde moro,

a pressa não existe.

Aliás, ela só é vista nas corredeiras,

nas grandes quedas das cachoeiras.

E outrossim na piracema,

quando os peixes nadam

alucinadamente contra a correnteza

em cardumes cintilantes, num feixe de união.

O grilo canta em batidas espaçadas, pausadas,

numa ressonância sem tempo,

somente rivalizando com a escuridão

espantada pela lua, pelas estrelas

e pelas luzes poderosas dos vaga-lumes,

como se fossem olhos brilhantes de anjos

que velam a vida da mata durante o breu.

Ao longe, o ruído da onça-pintada,

a espreitar o balançar fagueiro da cotia.

Antas gigantes,

impressões marcantes…

Isso, nada no mundo copia!

A sucuri mostra como também não carece de pressa;

seu tempo é outro.

Imbuída de destreza,

aguarda o momento exato para dar o bote e abraçar,

de surpresa,

devagarzinho e fortemente,

a sua presa:

capivara, paca e até jacaré,

para nunca mais soltá-los.

De vez em quando, ouvem-se causos dela apanhar,

de inopino,

um pescador disperso a meditar

ou algum bocó…

Difícil de acreditar,

mas dá aflição

e dó!

E tudo sem pressa…

O vento sopra na copa das árvores e as refresca,

amigos que são;

pássaros, de um galho a outro,

voam, brincam e se bicam.

E fico espiando, só.

Assim, a existência flui,

estala,

sem meta,

sem escala.

Homens de chapéu na cabeça se esquecem do mundo,

pois o têm unicamente para si,

à sua frente,

com ipês-roxos, amarelos, brancos,

numa explosão de cores,

como numa exposição impressionista,

num banhado intermitente de camalote,

chapéu-de-couro, vitória-régia, erva de bicho…

Tocam a boaiada,

fazem cantigas de amores;

berrante nas costas,

canivete na cinta

e crucifixo envolto no pescoço,

beijado sempre que se passa em frente

a uma igrejinha ou a um cemitério;

sentem alegria,

dão risadas,

embora seja extenuante a lida

e suas tarefas pesadas.

E, à noite, nas fazendas,

ao redor de uma fogueira,

contam-se, tartamudeando,

histórias de muito mistério:

assombrações, atos de valentia,

encantamento, magia.

E todo mundo presta atenção;

entre vários sinais da cruz,

escuta-se bem sério.

As mãos dessa gente são grossas,

os braços torneados

e a pele queimada.

Enquanto isso,

na cidade grande,

portões fechados,

rotina frenética,

todavia insossa;

todos preocupados

com crimes, terrores,

desrespeito…

E o relógio subjugando cada pessoa.

Onde moro,

trago tudo comigo – no peito,

sem pressa, “tartarugueio”

Nascido por aqui,

os rios eu namoro;

jogo guaviras ou bocaiuvas

pra ver quantas quicadas elas darão

em cima d’água.

E vira competição.

Geralmente perco,

porque receio machucar a ribeira.

Rimos do nada…

E toco a vida –

esteja ela alegre, ferida,

oblíqua, contorcida –

num compasso

de corixo que me seduz…

Embalo numa dança

cujos protagonistas da orquestra

são as seriemas, as araras,

as maritacas, os tucanos,

sem olvidar os tuiuiús.

E nos banhados,

jaús,

dourados,

piraputangas,

pintados,

cacharas

e pacus.

Não preciso de mais nada:

basta-me o gosto suado da terra a escorrer pelos meus dedos,

minha família pertinho,

o arroz carreteiro,

o abraço fraterno,

o tereré pantaneiro,

um olhar terno

e um bocadinho de dinheiro.

Matreiro,

perduro “tartarugueando”,

sem pressa,

sem aflição,

sem medo,

sem meta,

sem escala.

Apenas “tartarugueio”,

no compasso

do corixo,

com tudo isso

morando,

entre grasnidos

e num andar de atraso,

no meu peito

cheio, completo!

*João Linhares, integrante da Academia Maçônica de Letras de MS. Promotor de Justiça do Ministério Público de MS. Mestre em Garantismo e Processo Penal pela Universidade de Girona (Espanha). Especialista em Controle de Constitucionalidade e Direitos Fundamentais pela PUC-RJ

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