No Brasil, uma pausa nos temores fiscais

No Brasil, uma pausa nos temores fiscais

José Pena*

22 de agosto de 2020 | 16h10

José Pena. FOTO: DIVULGAÇÃO

Nos últimos meses, o dólar norte-americano tem perdido força em relação a uma cesta de moedas e, em particular, frente ao Euro. Nesta semana, porém, esse movimento foi parcial e momentaneamente revertido. Dois fatores específicos ajudam a explicar o comportamento dessas duas moedas nos últimos dias.

O primeiro foi a publicação da ata da última reunião do Banco Central norte-americano. No documento, o Fed, apesar de ainda se mostrar cauteloso com o processo de retomada da atividade econômica em meio à pandemia, não antecipou qualquer estímulo monetário adicional, embora siga afirmando que está pronto a fazê-lo se assim julgar necessário. Com isso, os juros americanos experimentaram uma ligeira elevação, ajudando a manter a atratividade relativa do USD frente à moeda europeia.

O segundo fator que conteve a apreciação do Euro foi a divulgação dos PMIs preliminares de agosto nesta sexta-feira, que mostraram que a recuperação econômica na Europa perdeu fôlego nestas últimas semanas, especialmente no setor de serviços. Parte disso pode ser atribuído à base de comparação mais elevada dos meses anteriores. Porém, é provável que o surgimento de novos focos de contágio da Covid-19 na região, mesmo que em escala bem menor que os números registrados em março e abril, também tenha contribuído para conter o ritmo de expansão da economia do velho continente. Por outro lado, o mesmo indicador para os EUA mostrou que, neste mês, tanto o setor industrial como o de serviços aceleraram o ritmo de expansão.

Domesticamente, a semana foi marcada por um elevado grau de incerteza quanto ao quadro fiscal presente e futuro, com reflexos relevantes sobre os preços dos principais ativos financeiros domésticos.

Em meio a rumores de uma possível saída do ministro da Economia, Paulo Guedes, declarações em contrário do presidente Bolsonaro e do próprio ministro no início da semana reduziram bastante esse temor, que se concretizado, poderia por em dúvida a manutenção do compromisso com o ajuste fiscal em particular e, de uma forma mais ampla, com a agenda econômica liberal, plataforma desta atual gestão federal.

Esse alívio, porém, se mostrou efêmero, com a derrubada, pelo Senado, de um veto presidencial a reajustes salariais para diversas categorias do serviço público mais diretamente ligadas ao combate à pandemia da Covid-19. Segundo informações do ministério da Economia, o impacto potencial da derrubada do veto sobre as três esferas de governo (federal, estadual e municipal) poderia alcançar cerca de R$ 100 bilhões nos próximos anos.

A Câmara dos Deputados, contudo, manteve o veto com ampla folga de votos, evitando que esse impacto se materializasse sobre as finanças públicas (a derrubada de qualquer veto presidencial requer maioria absoluta nas duas casas do Congresso).

Embora a semana termine com um menor grau de tensão, os riscos fiscais no médio prazo não desapareceram por completo. Algumas das dificuldades e resistências que a necessária agenda de ajustes enfrentará nos próximos meses foram explicitadas nesses últimos dias. A ideia de uma proposta de emenda constitucional (PEC) que ataque simultaneamente receitas e despesas públicas, conforme defendido pela equipe econômica, pode se mostrar excessivamente ambiciosa no atual ambiente político.

*José Pena é economista-chefe da Porto Seguro Investimentos

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: