No Brasil, tudo que começa bem ou acaba mal ou em pizza

No Brasil, tudo que começa bem ou acaba mal ou em pizza

Carlos Arouck*

01 Junho 2018 | 16h00

Carlos Arouck. FOTO: DIVULGAÇÃO

O movimento grevista dos motoristas autônomos e empresários do transporte de carga surgiu como uma força inesperada no cotidiano das pessoas e surpreendeu o país. No primeiro momento, a greve dos caminhoneiros representou os trabalhadores brasileiros e seus desejos de mudança, principalmente na demanda de redução da alta carga tributária imposta a todos no Brasil. Mas logo a seguir, aqueles que iniciaram o movimento de forma espontânea viram aproveitadores de plantão se apropriarem de sua ideia. Começou, assim, a ocorrer uma deturpação do que se iniciou . Uma coisa é uma reivindicação justa e outra coisa é um movimento político com exigências sem pé nem cabeça e bastante contraditórias. A legitimidade da greve se perdeu quando os indícios de um ataque oportunista ficaram claros.

Um exemplo disso é a população que sai às ruas para pedir por uma intervenção militar ou exigir a queda do Presidente. Derrubar Temer e colocar o Presidente da Câmara ou do Senado ou do STF em seu lugar não vai resolver o problema do Brasil, em especial tão perto das eleições de outubro e do fim dessa administração. O governo cedeu exatamente em tudo que foi pedido. Ao se decidir por uma greve, são duas as decisões mais tensas que devem ser tomadas no decurso da ação: quando começar e quanto terminar. A hora de encerrar já passou. Os caminhoneiros perdem a capacidade de capitalizar a vitória obtida, que pode virar contra eles próprios e passar a ser vista como um fracasso. Isso porque não deram um fim à greve imediatamente depois de terem sido atendidos e permitiram que outros propósitos entrassem em jogo agora. O apoio popular maciço ao movimento começa a se fragmentar,

Em meio à crise do desabastecimento de combustível, alimentos, remédios e até de gás de cozinha, a rotina do brasileiro se alterou. Aulas na rede pública foram suspensas. Algumas capitais apresentaram relativa melhora na questão do transporte público. As rodovias estão liberadas, o abastecimento em curso nos postos tende a melhorar. Isso não significa que o episódio esteja encerrado. Longe disso, a pauta de reivindicações vai custar cerca de 10 bilhões ao tesouro, e é o contribuinte quem vai pagar mais essa conta. A paralisação deixa de ser justa quando traz ganhos para uma categoria mas afeta toda a sociedade. O que se viu após alguns dias foram radicais que ameaçavam os próprios caminhoneiros. O saldo da empreitada ainda vai se espalhar por diferentes setores da economia e se mostrar bastante negativo: rombo nas contas públicas, aumento da gasolina, aumento de impostos através de subsídios e o clamor de outros grupos de pressão que vão apresentar suas exigências junto aos governadores, como a bancada do agronegócio e a Confederação Nacional da Indústria, que consideram o tabelamento do frete um retrocesso.

Fica a pergunta: quem quer e a quem interessa o caos? O Exército não fez nem fará intervenção alguma, como as pessoas já devem ter percebido. A resposta, infelizmente ou felizmente, vai vir da classe que hoje o povo mais detesta, dos políticos. Será por meio de acordos políticos feitos agora e por meio das escolhas dos eleitores em outubro, que uma solução menos açodada poderá pacificar de vez essa questão. Coerência, meus caros! Coerência!!!

*Carlos Arouck, agente de Polícia Federal, analista de cenários e de segurança pública