Ninguém ouviu

Ninguém ouviu

Samanta Lopes*

10 de junho de 2020 | 15h30

Samanta Lopes. FOTO: DIVULGAÇÃO

São muitas hashtags, muita gente nas ruas, fundo negro nos perfis, fotos de comoção das famílias que perderam alguém, e ninguém ouviu. Soa um silêncio massacrante por parte das autoridades e dos governos ao redor do mundo, ante os dados de morticínio negro que crescem todos os dias.

Outro tema silenciado: as mulheres negras em todo o mundo continuam com as menores faixas salariais, geralmente ocupam cargos informais ou são empreendedoras por necessidade, mesmo globalmente sendo líderes de família, conforme dados da ONU e da PNAD Contínua do IBGE. E a cada dia aumenta o número de mães solo, o número de vítimas de feminicídio e violência doméstica principalmente entre as mulheres negras, mas essas vozes, ninguém ouviu.

Homens negros nascem em sua maioria nas regiões periféricas do mundo e com estimativas de vida que fogem do padrão mundial: 21 anos contrariando os 70 anos propagados pelas entidades ao redor do mundo. Foram 111 tiros e ninguém ouviu.

E todas essas histórias são contadas repetidamente em quaisquer lugares onde há negros e pardos que foram vítimas da diáspora africana. Vira comoção mundial ante a morte de mais um homem negro, que não chegou aos 70 anos. E como quem não é negro pode ajudar? Nesse contexto não adianta não ser racista, precisamos ser antirracistas!

E como ser antirracista? Temos de começar da base, ou seja, nas escolas, as crianças precisam desde pequenas, encontrar educadores negros à frente das aulas, ouvir histórias de pessoas negras como Angela Davis e Conceição Evaristo, estudar a arte como da Rosana Paulino e Bando de Teatro Olodum, conhecer os conteúdos que são produzidos na música, na poesia, nos textos acadêmicos, entre tantas outras artes, e que estão intrínsecos em nossa cultura, sociedade, impactando na economia e na construção do cidadão. Apenas esse conhecer permitirá que entendam a importância dos pratos que consomem, da diversidade de suas origens, humanizarão seus tratos nas relações e no olhar e lhes ensinarão a apreciar a cultura do Brasil e celebrar a diversidade!

O mundo enfrenta tempos de comoção, as pessoas estão se olhando com mais cuidado porque não estão distraídas com o mundo lá fora, estão olhando para dentro de si, do outro, de tudo! E nesse “silenciamento” do mergulho interno, os gritos silenciados ficam mais altos, mais fortes, porque não há como manter discursos vazios. As máscaras caem e agora vemos quem realmente se importa com gente e quem simplesmente ignora.

Nesse momento, vemos empresas que mantém ações de suporte a seus colaboradores para que possam passar por essa reclusão com maior tranquilidade, promovem encontros e conversas virtuais, procurando desenvolver uma cultura organizacional que garante a inclusão da diversidade. Procuram valorizar toda a cadeia de valor, comprando e incentivando a compra em pequenos negócios, onde a maior parte dos empreendedores são negros ou outras pessoas com renda comprometida pelo momento. Conectam-se a ações colaborativas para levar mantimentos e cuidados de higiene a moradores de regiões vulneráveis, ajudam oferecendo cursos de formação à distância, entendendo as histórias dos seus colaboradores para dar-lhes oportunidade de desenvolvimento pessoal sem gerar medo por uma possível demissão.

Mais que hashtags, essas empresas entenderam que as relações precisam ser humanizadas, precisam conectar o olhar ao outro, respeitá-lo em sua essência, exercitar a alteridade e praticar a equidade de oportunidades. Devem atuar resgatando quem não está incluso para um patamar social de existência digna, somente assim toda essa estrutura social doente e desumana irá se curar. Isso exige um reaprender de todas as partes. A disposição ao diálogo e ao ouvir, o exercitar na vida as atitudes de antirracismo, a antidesumanização, a antibanalização da dor porque todas as vidas importam são atitudes que mostram que finalmente alguém ouviu.

Há um poema da Marina Colasanti com o nome “Eu sei, mas não devia”, e a frase que ela repete insistentemente precisa reverberar para todos: “Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia”.

*Samanta Lopes é coordenadora MDI da um.a #DiversidadeCriativa, agência de live marketing especializada na criação e realização de eventos, incentivos e trade. #TheShowMustBePaused #BlackOutTuesday #BlackLivesMatter

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