NFT: um caminho sem volta para a arte digital e para o mundo

NFT: um caminho sem volta para a arte digital e para o mundo

André Holzmeister*

23 de novembro de 2021 | 05h00

André Holzmeister. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Um dos conceitos que eu venho analisando nos últimos anos é uma reflexão sobre o momento artístico atual. Estamos vivendo um novo Iluminismo – movimento que nasceu na época renascentista no século XV, no qual o progresso humano passou a ser entendido não apenas pelo viés da ciência, mas também pelo desenvolvimento literário, teórico e artístico – com a revolução digital.

Esse novo momento da humanidade, com o avanço da tecnologia em todos os campos – incluindo na arte – abriu um horizonte infinito para o acesso a ferramentas de produção que até então viviam somente no imaginário, assim como a explosão de novos talentos na produção de arte digital.

Dos pincéis, telas e tintas, a arte também encontrou morada nos computadores, nos programas gráficos e na internet. Um dos pontos importantes dessa revolução foi o desenvolvimento da tecnologia blockchain, que possibilitou aos artistas digitais obter uma certificação de propriedade de suas obras – ou NFT (ou No Fungible Token).

Um NFT atrelado a um asset digital – uma imagem, foto, vídeo, música, entre outros – faz desse item algo único perante o mundo, abrindo espaço para investidores e colecionadores interessados em investir dinheiro de verdade na aquisição de obras e ativos digitais.

Uma analogia que ilustra bem esse cenário é o casaco que minha avó deixou de herança para mim. Podem ter várias peças idênticas, da mesma marca e cor circulando por aí, mas nenhum deles é o “casaco da minha avó”. No universo digital, tudo o que está disponível pode ser copiado. Uma música, um filme ou até mesmo uma obra de arte. Antecedendo ao blockchain, não havia mecanismo algum que possibilitasse ser “dono” de algo único no mundo virtual.

Vou trazer alguns exemplos. O retrato da Monalisa, de Leonardo Da Vinci, que está exposto no Museu do Louvre, na França, corre o mundo todo por meio da reprodução de sua imagem. Porém, a obra original, assinada pelo artista italiano, está na França. A Monalisa é o perfeito exemplo de quanto mais a imagem do original for reproduzida, mais conhecida a obra fica, e, portanto, mais valiosa ela se torna.

O blockchain confere a possibilidade de um asset digital ser considerado único e transferível por meio de “smart contracts”, ou contratos inteligentes. Quando esse item único troca de mão somente o novo dono tem esse certificado digital.

Como o universo dos NFTs ainda é algo novo, não acho possível ainda colocar tudo que é produzido dentro de um rótulo de um movimento artístico, como foi no passado, Modernismo, Cubismo, impressionismo etc… a variedade de estilos é enorme, mas certamente esse movimento artístico, essa revolução digital estará nos livros de história da arte como um dos momentos mais importantes, tão quanto foi a renascença.   Não existe mais algo com cara de NFT, certamente temos várias tendências, mas cada vez mais vemos mais artistas aderindo e diluindo o que no início era considerado cara de NFT. Eu, como artista, uso meu estilo de criação ao longo dos anos e sigo com essa marca registrada nessa nova realidade.

Antigamente, antes da era digital, ter acesso a arte era algo para poucos, inclusive para os próprios artistas. Na época pós Idade Média, era difícil ter acesso aos materiais para a produção de obras de arte. Além disso, era necessário ter alguém que apadrinhasse o artista para ajudá-lo a seguir com a produção de suas obras. Por isso vemos a maior parte das obras atreladas a retratos da nobreza ou encomendadas pela Igreja que eram quem podia pagar, não só o custo da mão de obra dos artistas, mas também o custo de materiais, imagina o custo de produzir os pigmentos das tintas naquela época.

Hoje o panorama é muito diferente. A revolução digital proporcionou a democratização da produção de arte, assim como a exposição de artistas talentosos que até então não tinham espaço para mostrar as suas obras.

Como exposto anteriormente, a reprodutibilidade de um NFT depõe a favor de sua valorização. Quanto mais ela for copiada, mais ela fica conhecida e seu original se torna cada vez mais valioso. É daí que vem o valor de NFTs baseados em memes famosos, Nyan Cat por exemplo, em 2 de abril de 2011 o artista Christopher Torres postou um Gif animado que viralizou. Todo mundo copiou e repostou, mas o criador do meme o colocou à venda em fevereiro de 2021 e foi arrematado por 300 Ether, 1.42 Milhão de dólares na cotação de hoje, ou 7.68 Milhões de Reais. O valor dessa obra não está nos pixels dela, e sim na história dessa arte, no fato de tantas pessoas a reconhecerem porque ela foi reproduzida a exaustão.

Uma coisa eu sei: o NFT veio para ficar e não envolve somente o universo artístico. Quem está entrando nesse universo dos NFTs hoje, daqui a alguns anos será considerado um pioneiro neste movimento.

Os artistas de verdade, que não são aventureiros, devem perdurar. E quem investir agora nesse tipo de ativo tende a se dar bem no futuro. Veja o que aconteceu com o Bitcoin! Se eu pudesse voltar 20 anos, eu diria ao jovem André: Invista em Bitcoin! Acho que se meu eu de daqui a 20 anos voltasse no tempo, hoje ele me diria, invista em NFTs.

O que estamos vendo hoje é apenas a ponta de um iceberg gigantesco que está vindo aí para mudar a economia do mundo.

*André Holzmeister é artista, pioneiro da computação gráfica digital e curador da exposição Breaking The Fourth Wall – A Digital Art Expo (ou Quebrando a Quarta Parede – Uma Exposição de Arte Digital, em português), primeira mostra de arte NFT outdoor da América Latina que estreia no Brasil

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