Neutralidade como pressuposto para o avanço

Neutralidade como pressuposto para o avanço

Cátilo Cândido*

22 de abril de 2021 | 16h20

Cátilo Cândido. FOTO: DIVULGAÇÃO

Alguns temas entram no nosso dia a dia, de repente, colocando conhecimentos novos em uma cabeça ainda sem muita informação. Até mesmo por isso, por desconhecimento, sofrem certa resistência nesta fase inicial. Temos medo do que não conhecemos. Facilita este processo de assimilação quando encontramos instituições ou empresas referências que os defendem. Este é o momento em que compreendemos que, no fundo, temos certa empatia com o tema.

Nos últimos anos, percebemos que a pauta ambiental passou exatamente por este caminho. Quando o Brasil foi apresentado ao tema com mais ênfase, durante os debates da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento de 1992, a Rio 92, muitos de nós víamos a defesa do meio ambiente como algo acadêmico, distante da realidade de um país que precisava se desenvolver a qualquer custo. Mas ganhava força ali a tese do desenvolvimento sustentável, já em seus três pilares hoje conhecidos de todos: o econômico, o social e o ambiental.

Como em qualquer movimento novo – e estranho para a maioria -– o tema foi apropriado por grupos ou partidos que apostaram na polarização e, em muitos casos, na radicalização, para ganhar espaços no noticiário com informações conflituosas. Colocar em evidência o problema do aquecimento global, por exemplo, foi importante para mostrar a necessidade de ajustes no modelo econômico. Mas talvez o diálogo fosse mais eficaz para a causa que o uso de greenwashing.

Hoje em dia o tema, mais do que estar em evidência, virou um assunto necessário. Para as empresas na área ambiental, por exemplo, não basta mais plantar árvores em algum lugar remoto; é preciso chegar à neutralidade de carbono e, de fato, provar que a alcançou. Ou seja, a verdadeira estratégia de desenvolvimento sustentável criou exigências para uma efetividade real que passa pelos países, empresas e vai até a obrigação do cidadão nas escolhas de suas compras diárias.

Porém, mesmo global e abrangente, nota-se, pelo menos no Brasil, um efeito da polarização criada sobre temas que poderiam ser mais palatáveis. O atrito se tornou o motor que faz a roda girar em torno deste assunto. O dualismo serve a quem deseja se contrapor, mas pouco ajuda a quem quer ver melhorias. A bandeira ambientalista, nas mãos de grupos partidarizados, serviu para valorizar os próprios grupos. Mas muito pouco colaborou com a necessidade de se trabalhar a pauta verde. O confronto neste caso, atrapalhou.

O certo é que hoje a pauta verde é um caminho sem volta e sem lado político. A própria pandemia da Covid-19 potencializou o debate, exigindo soluções socioambientais que interessem a humanidade. A causa da sustentabilidade é sim um movimento político, no sentido de defesa de uma causa que é comum a todos. Mas não pode ser tratado como um movimento partidário, ou de esquerda ou de direita, que usa a causa como propriedade ideológica. Mais do que a neutralidade de carbono, é preciso defender a neutralidade política do tema. A necessidade de ajudarmos a melhorar nosso ambiente é maior que a necessidade de nos posicionarmos ideologicamente.

Se analisarmos, desde 1992, os avanços na pauta verde foram maiores quando o debate – não o embate – evoluiu. Queremos todos a mesma coisa. Talvez em intensidades diferentes, claro, não há como negar. Mas a defesa do meio ambiente, da pauta ambiental, está presente em cada habitante desta casa chamada Terra. Cada cidadão tem sua responsabilidade com o equilíbrio ambiental, e este compromisso será maior na medida em que conhecimento sobre o tema também o seja.

O evento de Glasgow se aproxima – a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas –, reunindo especialistas para encontrar soluções políticas realmente necessárias para conter o aquecimento global. Este tipo de encontro entre as nações gerou acordos internacionais, e essas medidas, em parte, acabaram sendo incorporadas também no sistema produtivo, com importantes avanços na sustentabilidade diante da evidência de argumentos.

Estamos vivendo um momento crítico com a pandemia, com desemprego e queda da renda, e precisamos definir qual o futuro do planeta que desejamos e como será a recuperação econômica, social e ambiental. Para isso, é preciso ter bom senso. É preciso racionalidade. É preciso equilíbrio para encontrar os melhores caminhos.

O senso de sobrevivência fala mais alto sempre. Resta saber se queremos trabalhar em conjunto para nos preservar ou se, como animais irracionais, vamos preferir o improdutivo confronto.

*Cátilo Cândido é presidente executivo da Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alumínio (Abralatas)

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