Neurociência na raiz da polaridade política

Neurociência na raiz da polaridade política

Maria Rafart*

16 de junho de 2021 | 03h15

Maria Rafart. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

“Raciocínio motivado”, nome dado ao processo pelo qual todos nós tendemos a atingir exatamente as conclusões a que gostaríamos de chegar: em vez de escolhermos as estratégias cognitivas – raciocínios, fontes de dados, interpretações – que têm mais chance de nos levar à verdade, somos emocionalmente induzidos a buscar os meios que nos levam a confirmar nossas esperanças e preconceitos.

à tendência inconsciente de darmos mais valor a dados que confirmem nossas preconcepções e a fazer pouco caso de informações que as contradigam.

busca seletiva por dados e regras que embasem a conclusão desejada, criando uma ilusão de objetividade.

“A objetividade desse processo de construção de justificativa é ilusória, porque as pessoas não percebem que o processo é enviesado por seus objetivos, que estão acessando apenas um subconjunto do conhecimento relevante, que provavelmente acessariam diferentes regras e crenças na presença de outros objetivos, permitem que sentimentos e emoções dominem o processo de formação de crenças e a construção de justificativas.

Por exemplo, as pessoas se envolvem em pensamentos ilusórios sobre se seus times favoritos ganharão ou não, ou se um parente sobreviverá a um procedimento cirúrgico arriscado. Nessas situações, as pessoas podem ter menos mente aberta do que em outras situações nas quais não têm um resultado preferencial em mente.

Os erros e os preconceitos na maneira como as pessoas fazem julgamentos sociais, processamento e interpretação ativos das informações recebidas.

Os defensores da teoria cognitiva da motivação afirmam que as expectativas das pessoas guiam seu comportamento, geralmente, de maneiras que trariam resultados desejáveis.

COMO A COGNIÇÃO MOTIVADA INTERFERE NA POLARIZAÇÃO POLÍTICA

Nosso cérebro é um verdadeiro processador de dados. As informações do ambiente são coletadas, absorvidas e processadas em milissegundos, naquilo que se chama de processo cognitivo.

Contudo, os dados não entram de forma objetiva no nosso cérebro, de forma que, se por exemplo, nossa mãe enfrenta uma difícil doença com provável desfecho fatal, tenderemos a enviesar o nosso raciocínio, percebendo de forma mais forte os dados que digam que ela será uma das poucas pacientes serem curadas. A nossa convicção e esperança de que ela se cure nos leva a prestar mais atenção a dados favoráveis.

Pirandello, em sua maravilhosa peça chamada “Assim é (se lhe parece)”, apresentou de forma lúdica como as muitas verdades do mundo coexistem. E uma verdade tenta o tempo todo anular as hipóteses da outra. Na estória, três personagens se mudam para um vilarejo. Os forasteiros podiam ser um casal com a sogra, ou um casal com a mãe da ex-mulher morta, que ela ainda julgava viva… Não se sabe qual versão corresponde à verdade: a da sogra, a senhora Frolla, ou a do genro, o senhor Ponza? A sogra está convencida de que a filha está viva, que seu genro imagina que ficou viúvo, e se casou com outra mulher. Para o genro, a sua mulher morreu mesmo, mas a sua sogra nega o fato de a própria filha estar morta.

A peça de Pirandello é de 1917. Em 2021, experimente fazer buscas por postagens de exercícios físicos em suas redes sociais favoritas. Em breve você estará num mundo em que todos fazem atividades físicas, as mulheres possuem coxas definidas e glúteos enormes, e o abdômen trincado dos homens já nem é mais tanquinho, será uma grande lavanderia… Bem-vindo à bolha fitness da internet. Parece que o mundo todo se exercita, enquanto você está na cama, lendo este artigo no seu celular.

Os tais algoritmos mostram para você os assuntos de seu interesse, e assim, você se retroalimenta dos assuntos que mais lhe interessam, e seu mundo interno, o seu pensamento, tenderá mais ainda a validar aquilo que vê… Quem procura fitness, fica dentro do fitness.

Para a teoria da cognição motivada, embora o processamento de dados no nosso cérebro nos pareça extremamente objetivo e imparcial, os elementos emocionais interferem drasticamente no processo, interferem nos dados que escolhemos, e interferem nos resultados. Imagine, então, se os dados para você escolher forem quase todos enviesados pela bolha em que você está.

Com a política, as suas buscas, e até mesmo simples paradinhas num post para absorver determinado conteúdo, enviarão os dados que as redes precisam para manter você encapsulado em suas próprias convicções ideológicas.

Na seara complicada da polarização política, as informações disponíveis para as pessoas estão todas ali, mas as bolhas algorítmicas nas quais se meteram, fazem com que cada vez mais os indivíduos recebam aquilo que combina mais com as suas crenças e viés político.

E quanto mais você recebe informações que validem as suas teorias, mais você processa esses dados como se fossem objetivos, mas eles são, na realidade, subjetivos. Basicamente, o que você espera que aconteça, ou aquilo em que acredita, influencia na escolha de dados que você quer processar.

Na hipótese de duas pessoas com pensamento político antagônico se “trombarem” num post qualquer, a faísca é certa. Para cada uma delas, suas convicções estão corretas, e as do outro estão erradas. E ambos ostentam “dados irrefutáveis” do que afirmam: afinal de contas, seu raciocínio, motivado pelo incentivo que suas bolhas de informação oferecem, lhes parece perfeitamente correto. São milhões de senhoras Frollas e de senhores Ponza em fricção permanente.

*Maria Rafart, psicóloga

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