Neoliberalismo inexitoso, trôpego pranteando o cachorro morto

Neoliberalismo inexitoso, trôpego pranteando o cachorro morto

Maron Emile Abi-Abib*

12 de março de 2021 | 07h00

Maron Emile Abi-Abib. FOTO: DIVULGAÇÃO

O centro dos debates entre os povos é, na atualidade, recorrentemente em torno de: a) nas intrincadas relações com o capital financeiro transnacional, rentista, perambulante, desestabilizador da empregabilidade local e descomprometido com o social; b) no consumo exagerado e irrefreável do absolutamente supérfluo que, em sua maior parte, contribui para a devastação da natureza numa combinação aterrorizante com a exploração velocista dos recursos não renováveis; c) na orgânica inapetência e aversão dos detentores do capital em se restringirem à produção e comercialização de produtos destinados ao consumo consciente em prol da vida no planeta. Tudo isso, e mais as guerras civis, religiosas, psicológicas, étnicas e comerciais; os conflitos armados entre os povos; as barbáries de fundamentalistas e terroristas; e a ideologização sistemática nas relações externas, especialmente pelas grandes economias, via bloqueios econômicos, obstaculizando-se a pacificidade nas relações comerciais entre os povos.

Em suma, são esses os agravantes que repercutem no aumento da fome, da extrema pobreza e da escalada migratória, notadamente dos refugiados de guerras civis. É certo que o 11 de setembro de 2001, arrefeceu o debate entre os povos em fóruns internacionais, agudizando-se o belicismo, freando-se os esforços pela paz mundial, mas, paradoxalmente, estimulou-se o neoliberalismo, como a arte de dominação econômica. Não fora este acontecimento, teríamos os EUA mais concertados pró-paz mundial e, ainda que polêmico, um país mais efusivamente em defesa dos direitos humanos e da democracia. Persistem, contudo, as forças neoliberais, na estocada por um Estado mínimo. A defesa e a sustentação teórica do neoliberalismo econômico encerram, pois, contradições dificilmente superáveis. Uma das premissas que defende aguerridamente é o total afastamento do Estado das atividades de produção e de circulação da riqueza. Por outro lado, o modelo neoliberal não vinga sem os aportes e concessões do Estado. É conveniente, por exemplo, que o Estado cuide da educação, da saúde, da habitação, do transporte público, do saneamento básico e da seguridade social, enquanto essas áreas não forem economicamente promissoras! Sem pejo, as forças capitalistas mantêm-se em permanente conflito com o Estado, com críticas em seu demérito, antevendo apoderar-se, no futuro, da transferência desse “mercado”, no que for lucrativo, ao setor privado. É uma arte que permanece in tempore, sob a premissa de que o Estado é sempre dispendioso, incompetente e improdutivo. O enfoque – o approach – de que utilizam é desprovido de informações básicas de cunho socioambiental, portanto superficiais, quando não errados, especialmente quando se despreza a população não ativa economicamente, que não tem poder de compra. Aquela que é desprezada – por incapaz – na estrutura do lucro e da recompensa. Enfim, aquela cujo ônus cabe ao Estado. São eles os desempregados; os que trabalham nos lares, mas sem renda; os portadores de necessidades especiais; os abandonados e moradores de rua; os aposentados empobrecidos; os arrimos de família; os já nascidos pobres e/ou miseráveis. Para estes, os recursos cada vez mais vão se escasseando.

Priorizar investimentos de infraestrutura necessários ao crescimento econômico é indiscutível, mas não em detrimento dos socorros socioeducacionais, habitacionais, previdenciários, de transporte público e de saúde. Ainda na linha de mero confronto, criticam, permanentemente, não por motivo real, a “suposta” excessiva carga tributária. E cobram do Estado a infraestrutura e os investimentos para o desenvolvimento econômico; agravam o mercado com a financeirização da economia e, em tempos áureos, aplaudem a abundância de créditos estimulando o consumo desregrado com real prejuízo à indispensável poupança e segurança financeira do consumidor, e, nas vacas magras, criticam virulentamente essa política, e viram as costas. Ardis, atrás de ardis.

No período recente de prosperidade econômica e social no Brasil (2003-2013), o comércio fácil e “bem-sucedido”, próprio do consumismo, cresceu talvez em demasia. O inútil, o desnecessário ou não urgente à sobrevivência com dignidade, saiu à frente, e se instalou um mercado para os tolos e imprevidentes.  O consumidor paga para ser seduzido e ser, por vezes, enganado! A riqueza inútil, a fábrica de fazer fumaça, tem hoje certamente grande representação no PIB brasileiro. Uma dessas “fábricas de fumaça” é a do entretenimento que distrai, diverte, alegra, mas que também atrasa, entontece, empulha e manipula as mentes. A liberdade preconizada no liberalismo econômico encerra-se com a exclusão dos que não podem pagar a conta.

Rubens Ricupero, em poucas palavras, nos prenuncia a calamitosa situação do atual regime econômico hegemônico no planeta: O colapso da financeirização da economia, a inaceitabilidade da desigualdade crescente, a inadequação da ênfase obsessiva na austeridade, a gravidade do desemprego… O capitalismo, tal como praticado hoje, está em crise de legitimidade, por três causas: “a tendência ao agravamento da desigualdade, o desemprego em níveis intoleráveis e um regime financeiro enlouquecido, ameaçando destruir o próprio sistema (RICUPERO, 2002, n. p.).

*Maron Emile Abi-Abib é administrador, professor em gestão de Organizações Sociais e autor do livro Capitalismo Social, O que é? Como adotar? Por ele pode mudar o Brasil?

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.