Nem tudo é só tecnologia

Nem tudo é só tecnologia

José Renato Nalini*

05 de outubro de 2020 | 08h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

A Quarta Revolução Industrial é uma realidade irreversível e trouxe consigo mutações disruptivas que todos sentimos e com as quais já nos acostumamos. O advento da pandemia fez com que se acelerasse a assimilação das tecnologias e tudo funcionou de forma surpreendente. Os campos aos quais me atenho, prioritariamente, mostraram-se exitosos. As aulas prosseguiram e houve inequívoco proveito na economia de tempo. Os encontros presenciais obrigavam a locomoção de mestrandos de vários Estados da Federação. Pois conseguiram participar de todas as sessões, realizar seminários, interagir, sem prejuízo aparente.

Confessam os interessados que o dispêndio de tempo e logística foi destinado a intensificar as pesquisas. Todos contentes, felizes, certos de que essa realidade veio para ficar. É preciso assumir a verdade: as aulas presenciais serão excepcionais. O uso das possibilidades web será a rotina.

O Judiciário relativizou a cultura dos palácios, das gigantescas estruturas, das grandes concentrações de servidores. O que interessa é a outorga da prestação jurisdicional. E ela cresceu. O TJSP, minha referência, produziu cerca de vinte milhões de decisões. Sem as viagens com viaturas oficiais, sem o deslocamento por todo o Estado, sem a obrigação de presença física de assessores que puderam bem desempenhar seu trabalho de pesquisa e elaboração de minutas em suas próprias casas.

Será lamentável se, com a chegada da vacina, toda essa economia de tempo – cada vez mais precioso – e de recursos materiais, vier a ser abandonada, para o retorno puro e simples à velha praxe.

Sempre fui adepto da modernidade, do empreendedorismo, da criatividade, da ousadia e da audácia. O mundo reclama coragem. Para uma era em que o inesperado é a única certeza, a capacidade de adaptação é essencial para que a humanidade encontre caminhos de subsistência equilibrada e digna.

Mas nem tudo é tecnologia. As novas gerações já nascem com chip e seus integrantes são nativos digitais, os millenials. Mas a reconstrução do convívio após a praga – e tendo em vista que outras pandemias virão, pois é tarde para nos convertermos e sermos inquilinos éticos de Gaia – terá de pensar na revalorização social de atividades essenciais, imprescindíveis, mas não muito cotadas no ranking do prestígio.

Enfermeiros, terapeutas, nutricionistas, cuidadores, atendentes, técnicos de enfermagem, serão cada vez mais necessários. Talvez não seja necessário, neste momento, sejam experts em Inteligência Artificial, robótica, internet das coisas, impressora 3D, nanotecnologia e outros temas que precisarão ser enfrentados de imediato por outros profissionais.

Jardineiros, padeiros, cultivadores de horta orgânica, agentes de reflorestamento, formadores de bosques urbanos, recuperadores de áreas contaminadas, semeadores, plantadores, cozinheiros, confeiteiros, também são profissionais a cada dia mais reclamados pelo chamado “novo normal”.

São atuações menos suscetíveis à automação, ao menos por enquanto. Mas é preciso readequar o valor social de seu trabalho e a remuneração que lhes é reservada. O país de idosos em que o Brasil se tornará dentro em breve necessitará de cuidadores, de acompanhantes, de pessoas que façam companhia aos solitários. E isso precisa ser reconhecido.

A interação humana é algo muito difícil de se automatizar. Se já existem robôs que fazem companhia, a muitos ainda parece insubstituível a presença física de alguém cuja mão se possa segurar e cujos olhos se possa fitar.

Propiciar uma reflexão a respeito do valor social equivocado que a sociedade conseguiu elaborar a respeito de funções consideradas servis, ou pouco significativas, é também missão dos educadores. E educadores, somos todos nós, exerçamos ou não a docência formal.

Ao atravessar por esta praga, o mundo teve a oportunidade de repensar os seus valores. Tudo aquilo a que dávamos importância excessiva, pode ter-se mostrado despiciendo. Precisamos de muito menos do que nossa mentalidade consumista nos acostumou a querer.

Assim é que, ao lado do adestramento para as tecnologias cuja obsolescência é fenômeno incontornável, as crianças precisam ser treinadas a espeitar toda e qualquer atividade humana indispensável a um convívio harmônico. Empatia, consideração em relação ao outro, compaixão, habilidade comunicacional, espírito de cooperação e de trabalho em equipe, tudo isso será tão ou mais importante do que ser um ás das mais modernas conquistas do mundo high-tech.

Sempre recordar que tecnologia é ferramenta, é instrumento, é meio e não finalidade. Finalidade é o ser humano. E este, depois do castigo pelo qual passou em 2020 e terminará não se sabe quando, talvez tenha condições de entender melhor o quão frágil é e trabalhar com a ideia incontestável da finitude.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: