Nem todo racista é um monstro

Nem todo racista é um monstro

Sem essa reflexão, de nada adianta o Dia da Consciência Negra

Karolyne Utomi*

20 de novembro de 2021 | 14h25

Karolyne Utomi. FOTO: DIVULGAÇÃO

Não se engane com o sentido desta afirmação, pois obviamente ela não tem a intenção de transformar racistas em mocinhos e mocinhas, contudo ela tem por objetivo evidenciar a necessidade de compreendermos que pessoas consideradas boas cidadãs também são racistas, como você, sua mãe, sua tia ou aquele artista que você tanto admira.

Tão importante quanto o lembrete que o dia 20 deste mês de novembro nos traz para a consciência negra, é sabermos a importância de cada pessoa assumir o racista que há dentro de você. Enquanto isso não for absorvido pela sociedade, padeceremos com os rastros e fantasmas do racismo por mais 10, 20, 30 ou 133 anos.

Quando falamos em combater o racismo, na mente da maior parte da população brasileira vem a imagem de uma pessoa inconsequente chamando uma pessoa negra de macaco, jogando banana para ela, ou ainda uma pessoa que se levanta da mesa do restaurante para não se sentar ao lado de pessoas negras.

É nítido que referidas situações refletem atitudes que carregam discriminação racial, porém são cenários que costumo chamar de racismo agressivo, que é aquele que choca, que é inacreditável, que passa nas chamadas de telejornais.

Todavia, ouso dizer que não é este tipo de atitude que perpetua o racismo resultando em estatísticas como termos 56% da população brasileira sendo negra, e por outro lado, 75% das pessoas com menor renda familiar mensal serem também pessoas negras.

Se somos todos iguais, qual a razão de esta conta não fechar? Se nossos pais, irmãos, amigos, vizinhos e colegas de trabalho não xingam pessoas negras na rua, e não enxergam diferença na cor das pessoas, por que é tão nítido que o racismo ainda existe?

O perigo e quiçá a maior sustentação do que tenta se combater no dia 20 está no racismo velado. Aquele que é praticado e reforçado diariamente por basicamente todos os cidadãos.

E por isso, é necessário afirmarmos sem medo de que nem todo racista é um monstro, pois com isso conseguiremos olhar para nossas próprias sombras, enxergarmos a história, a estrutura da sociedade e assumir o racista que há dentro de cada um.

É raro, para não dizer se dizer impossível, de alguém próximo a nós assumir que tem atitudes racistas, isto porque em nossa mente temos aquela imagem do racista que joga banana nas pessoas. E então imagina que uma pessoa que acorda todos os dias cedo, trabalha honestamente, não rouba e nem mata ninguém, é simpático, faz doações e atravessa na faixa de pedestre se olhará diante do espelho e pensará: sou uma pessoa legal, mas se eu nunca olhei conscientemente para todas minhas atitudes diárias, com certeza reproduzo atitudes racistas.

É difícil termos esta clara compreensão, mas ela é inquestionável, pois a nossa sociedade foi estruturada em cima de cenas de discriminação racial com grave violência e opressão e durante muitos anos acreditou-se que pessoas negras eram inferiores e deveriam sempre estar em posição de submissão.

A mente dos nossos ancestrais foi desenvolvida em cima desta ideia e ela não foi descontruída no caminhar e evolução da nossa sociedade.

Muito pelo contrário! Quando houve o “fim da escravidão” não aconteceu uma reeducação da população a fim de que compreendessem que o que tinha ocorrido até então com a população negra fora uma das maiores injustiças da história, pois apagaram a história de vários povos e a resumiram em seu tom de pele como se tivessem nascidos escravos.

E o que se desenhou a partir de então não foi igualdade e sim piedade.

O dia 20 de novembro vem para nos lembrar que a população negra não necessita de piedade, e sim a justa igualdade, e sem reparação histórica consciente, isto nunca ocorrerá.

O dia 20 de novembro nos lembra que a população negra foi oprimida cruelmente e de repente foram colocados como livres sem dinheiro, sem estudo, sem nada, sendo automaticamente marginalizados e desde então até os dias atuais o que existe é uma tentativa claramente frustrada de que todos são vistos como iguais porque assim está escrito na lei.

Mas na prática, temos a perpetuação de pensamentos e atitudes que rememoram as pessoas negras como submissas, muitas vezes de forma inconsciente para alguns, e para outros conscientemente.

Se perguntarmos para qualquer pessoa sobre a história dos negros, aposto que dirão: escravidão e sofrimento. Ninguém se preocupa em estudar o “antes”. Assim como ainda hoje estranhamos ver uma pessoa negra em um carro de luxo, e em contraponto olhamos duas vezes se vemos uma criança loira de olhos claros como moradora de rua.

São rastros do que está plantado na nossa mente e não é simples de entender como questões banais iguais a estas se desdobram em muitas outras que tornam o racismo infindável.

Sem nos aprofundarmos em questões complexas, para hoje, que tenhamos ao menos a consciência de seguirmos com a certeza de que você não precisa se assumir um monstro para ser responsável e consciente de assumir que provavelmente tem atitudes racistas e elas devem ser combatidas, por mais que pareçam inofensivas, pois elas carregam uma estrutura.

Não é por acaso que o racismo ainda existe e é responsabilidade de todos, sem exceção, combatê-lo.

*Karolyne Utomi – KR Advogados

Tudo o que sabemos sobre:

ArtigoRacismoDia da Consciência Negra

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.