Nem príncipe e nem sapo – escolha um homem real

Nem príncipe e nem sapo – escolha um homem real

Emanuela Carvalho*

01 Julho 2017 | 04h30

Ainda sob o forte efeito do romantismo explícito que contagia o mês dos namorados, cabem algumas considerações.

A primeira delas é que, se formos dramatizar, diremos que os homens estão se transformando em uma espécie rara. Isso tudo porque, de acordo com o censo, há em média 6 milhões a mais de mulheres nesse lindo e imenso Brasil. Se você é mulher e se interessa pelo assunto, não deixe de levar em consideração que, entre esses homens a menos, ainda há aqueles para os quais você estará fora do mercado, fora de cogitação, de jogo, do que for.

Diante desse fato – porque isso não é ilusão – o que fazer?

Se ter um companheiro é o seu objetivo de vida, adiantaria a dica de que há mais entre o céu e a terra do que um boy? Se adiantar, que alegria! Prevendo que isso não mude em nada os seus planos, continuaremos as nossas considerações, imaginando que a busca por esse parceiro já está próxima de se tornar desesperada, principalmente se baseada nos dados do censo.

E aí começam as dúvidas. Mulheres são educadas ouvindo alguns bordões que incutem a ideia de que os homens são todos iguais e que elas precisam ser sábias para lidar com eles e não perdê-los. Mentira. Mentira.

Homens não são todos iguais. E você saberá disso quando aprender a diferenciar, por exemplo, um homem machista dos demais – mesmo acreditando que eles são maioria, essa identificação é possível. E você não precisa aprender a lidar para não perder, porque o homem não é uma coisa, um troféu, um cinturão do UFC para que você tenha que lutar, quebrando a cara – literalmente ou não – a fim de não entregá-lo à outra pessoa.

Quando você acredita que todos são iguais, só mudam o CPF, vai justificando o que é – ou deveria ser – injustificável para viver um relacionamento. É o tal “aceite o sapo”. Aceite nada! Por que aceitar um sapo? É isso que você merece? De jeito algum! Mas também não vá cair na besteira de não querer o sapo porque está à espera do príncipe. A não ser que esteja disposta a viver solteira para todo o sempre, como dizem os contos de fadas que podem erradamente lhe inspirar até hoje.

Príncipes não existem. Mesmo que venham num carro importado branco, sejam lindos, cheirosos, inteligentes, românticos, carinhosos, atenciosos, liguem no dia seguinte, respondam às mensagens assim que visualizadas, realizem todos os seus desejos – e quanto mais a lista cresce, mais vamos percebendo o quanto idealizar é fácil. Stop! Todas essas qualidades em um ser são até um excesso, mas você pode ter a sorte de encontrar essa raridade, só não espere que ele não tenha defeitos. Porque em algum conto de fadas, os príncipes são ciumentos? Misóginos? Possessivos? Violentos? Antes de responder “não”, pense em responder “não sabemos”, já que essas informações não são ditas e o mais importante é o “foram felizes para sempre”.

E se não devemos aceitar o sapo porque merecemos coisa melhor e não queremos ficar todos os nossos dias esperando por um príncipe que não virá, o que nos resta? Levando em consideração que ter um companheiro seja um objetivo de vida e que o conselho acima não surtiu qualquer efeito, o que nos resta é mentalizar e pedir ao universo um homem real.

Como seria esse homem? Como identificar, sem idealizar, principalmente se estivermos apaixonadas? Porque a paixão tem como um dos efeitos colaterais a total e irrestrita admiração e veneração do outro e traz de bônus uma venda blackout que não permite enxergar nadinha além das qualidades. Confesso, é quase uma missão impossível.

Não se apaixonar seria a solução? Seria. Mas então que graça teria?

O homem real é percebido através do que há de mais simples. Ele é comum. Não será aquele que lhe acordará com um beijo do sono profundo depois que você, gulosamente, comeu a maçã envenenada, mas nem por isso esse beijo não será capaz de lhe fazer fechar os olhos e sonhar, mesmo que por alguns segundos. Nessa hora, pode! Ele não escalará o castelo tentando lhe libertar da masmorra, mas vai lhe mostrar que a confiança numa relação a dois traz uma liberdade que não tem preço.

Lamento não conseguir definir esse homem comum com maior precisão. Seria leviana se tentasse. O que eu consigo é alertar para o fato de que não somos perfeitos, só isso justifica não buscarmos perfeição no outro. Mas atenção: o fato de sermos imperfeitos, não nos tira o direito de fazer boas escolhas.

A verdade é que, feliz mesmo eu ficaria se o conselho de que esse homem que você busca a qualquer custo não é, não deverá ser, o centro de sua vida, fosse ouvido e surtisse algum efeito. O objetivo não é viver sozinha, mas buscar ao redor tantos outros motivos para estar realizada. Há quem diga que é justamente quando você está ocupada com o que tem, em vez de conjecturar sobre o que lhe falta, que o homem comum aparece para lhe mostrar, através de pequenos-grandes gestos, que sapos e príncipes só existem em nossa imaginação e que, mesmo lá, eles são completamente desnecessários.

*Emanuela Carvalho é professora e autora do livro “Antes Feliz do que Mal Acompanhada”

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