Nem negacionismo nem apocalipse

Nem negacionismo nem apocalipse

José Renato Nalini*

24 de junho de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

É natural que os brasileiros estejam apavorados com tantas notícias ruins. A pandemia não tem prazo para acabar, a economia capenga, Desemprego e pobreza aumentam e o mundo civilizado quer exorcizar um país que extermina sua floresta.

Tudo parece conspirar contra o Brasil, que já foi a grande esperança planetária na década de 70 em diante. O retrocesso na tutela ecológica parece ter colocado esse capital reputacional a perder.

Não é o que pensam Gesner Oliveira e Arthur Vilela Ferreira, autores do livro “Nem negacionismo nem apocalipse – economia do meio ambiente: uma perspectiva brasileira”. O argumento dos autores é o de que o país tem um perfil de emissões de gases diferente da média mundial.

Por exemplo: a geração de eletricidade e o transporte representam 53% das emissões globais de gases do efeito estufa no mundo inteiro. Só que aqui, 60% das emissões derivam do agronegócio e do desmatamento. Nossa contribuição ligada ao setor de energia, que já é em parte renovável, responde por apenas 8% das emissões brasileiras.

Isso significa que temos oportunidade de diminuição mais rápida, desde que sejam controladas as atividades ilegais e criminosas do desmatamento. Isso não é fácil. implicaria ei mudança comportamental, setor de que o Brasil é muito carente, pois não conta com educação de qualidade em escala compatível com seus 213 milhões de habitantes.

A pecuária, sob aspecto essencialmente ambiental, é a maior vilã. o gado bovino, com sua flatulência e ruminação, produz gás metano mais prejudicial a atmosfera do que o monóxido de carbono expelido pela frota automobilística. Como corrigir isso?

Propõe-se a substituição da proteína animal por outros tipos de proteína. Se o rebanho brasileiro de gado fosse um país, ele seria o terceiro maior emissor global de gases Produtores do efeito estufa. quem se habilita a pensar que o brasileiro aprenderá a consumir proteína de insetos? Ou que o desenvolvimento das chamadas “carnes limpas”, produzidas em laboratório, conquiste a mesa dos nacionais?

A dupla de estudiosos é otimista: isso já está se concretizando, com a oferta de hambúrgueres vegetais em redes de lanchonetes como a Americana Burger King e a brasileira Lanchonete da cidade”. Se isso ganhasse escala, estaríamos no melhor dos mundos. Um hambúrguer vegetal usa 96% menos área e 87% menos água do que o tradicional. Haja campanha educacional para que o povo se conscientize disso e se considere responsável pelo futuro da Terra.

Muito mais difícil é o combate à grilagem de terras públicas, problema de múltiplas dimensões, com ramificações na economia na política no meio ambiente e na segurança pública. Para Gesner e Arthur, o ciclo da grilagem tem objetivo exclusivo de lucrar com a venda das terras após sua regularização. Mas começa com o desmatamento e a queimada para abrir pastos.

Acreditam os autores que 16,6% das terras no Brasil não estão tituladas. Mas esse percentual pode ser ainda maior. Além do extermínio da floresta, as “áreas sem dono” não podem certificar sua produção, nem ter acesso a financiamento ou programas para melhorar a produtividade.

O cenário não permite visão otimista, quando o governo federal flexibiliza o licenciamento ambiental, cumprindo sua promessa de “soltar a boiada”, desestrutura os equipamentos protetivos edificados durante várias décadas e premia infratores, enquanto pune servidores que apenas cometeram o delito de cumprir a lei.

Em relação à produção de resíduos sólidos, salientam os autores a existência de uma economia subterrânea, geradora de assimetrias que impedem a implantação de políticas públicas. A questão da educação é fundamental: o brasileiro não se considera responsável pelo seu lixo e acha que por pagar a taxa de coleta, pode fazer da via pública o seu depósito de descarte de tudo aquilo que desperdiça.

Na concepção de quem escreveu esse livro, nada será como antes, pois a pandemia trouxe novo foco ao debate ambiental. Mais crível é aceitar que a pressão Internacional da parte civilizada do planeta encontre eco numa economia fragilizada e que ainda não parece ter noção do que é necessário para resgatar décadas lamentavelmente perdidas.

Se o Brasil quiser, ainda poderá ser a nação que maior proveito extrairá dos trilhões de dólares disponíveis para incrementar a urgência da descarbonização planetária. Mas precisa de fato querer. Por enquanto, não evidenciou essa vontade.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – gestão 2021 – 2022

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