Nem na China nem aqui

Nem na China nem aqui

Cassio Grinberg*

17 de dezembro de 2018 | 05h00

Cassio Grinberg. FOTO: DIVULGAÇÃO

Trata-se de realidade, não de uma série da Netflix: a China começou a implementar oficialmente o sistema de ‘crédito social’ anunciado em 2014, por meio do qual, até 2020, pretende ranquear seus cidadãos por bom comportamento.

O sistema bebe da lógica dos indicadores de confiança financeira para conferir punições ou recompensas baseados no que fazemos de “certo” ou “errado”. Desse modo, se vivêssemos na China e viajássemos sem um bilhete válido, seríamos banidos de pegar futuros trens. Se publicássemos “fake news”, seríamos proibidos de acessar a internet. Se passeássemos com nosso cão sem coleira, teríamos ele confiscado.

Se, por outro lado, postássemos “conteúdo adequado”, seríamos bem recomendados pelos sites de namoro mais populares e, se parássemos mais vezes na faixa de segurança, teríamos melhores taxas de juros nos bancos e mesmo desconto na conta de luz. Vídeos recomendando andar na linha já veiculam em voos regionais e, embora mantida em segredo, a metodologia de averiguação não traz nada de novo: já somos, a todo o tempo, “observados” pelos canais onde navegamos e, para um governo que controla a informação, fica fácil pinçar os exemplos.

Se decretamos como bizarro o sistema, não podemos deixar de notar que ele tem sido reputado como benéfico pelos cidadãos: dentro de uma lógica gamificada de realidade, os chineses passam a viver como se acumulassem pontos em um programa nacional de milhagem, e com isso diminuem agressões, atropelamentos, corrupção. Trata-se, no entanto, de uma medida que a médio prazo pode significar o começo do fim da inovação, justamente em um país que está se tornando referência nisso, e sabem por quê?

Porque se a China desafia a lógica de que não existe crescimento sem liberdade individual, ela será reprovada no teste de querer inovação eliminando sua base: um certo “astral” de contravenção, de quebrar regras. Assim como a política de filho único criou dezenas de milhões de pessoas sem irmãos, o sistema de ‘crédito social’ terá, no longo prazo, necessariamente que ser revisto. De resto, querer que um país melhore por meio da punição tem a mesma raiz de educar os filhos pelo castigo: criamos uma geração inteira com medo de parar de copiar.

*Cassio Grinberg, economista e consultor de empresas

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