Negacionismo sanitário e econômico

Negacionismo sanitário e econômico

Orlando Morando*

01 de abril de 2021 | 09h10

Orlando Morando. FOTO: AMANDA PEROBELLI/ESTADÃO

​Faz pouco mais de  um ano, desde que o coronavírus chegou ao Brasil, que uma pergunta é repetida e divide a sociedade brasileira: “A prioridade deve ser a saúde ou a economia?” Mais de 300 mil mortes e 12 milhões de contaminados depois, a única resposta possível é que o Brasil fracassou no campo sanitário e naufragou no econômico. Somos um dos piores países  no enfrentamento da pandemia. O brasileiro sofre, doente e empobrecido —ou seja, fracassamos nos dois lados.

​O nosso sentimento é de luto pelas vidas perdidas e de agradecimento a todos os profissionais que dedicam suas vidas a salvar os próximos.

Infelizmente, as previsões são de que a crise ainda piore antes de melhorar —o que só vai acontecer com a vacinação em massa, outro ponto em que o governo federal demorou muito para agir. E, mesmo quando a solução chegar, as consequências econômicas, sanitárias, sociais, educacionais e psicológicas vão perdurar por anos.

O problema é de responsabilidade de todas as esferas, mas estoura principalmente nas cidades. É na rede municipal básica de saúde que a maioria dos pacientes pede socorro. O crescimento com despesas da saúde em São Bernardo foi de mais de 30% desde o início da pandemia.

É o sistema municipal de educação que recebe os estudantes que saíram do ensino privado. E esse aumento brutal de demanda vem acompanhado de uma queda significativa de receitas pela redução da atividade econômica. Em São Bernardo, a queda de receita de impostos foi de 4,25% em um ano. E o cenário não apresenta nenhum sinal de recuperação.

São Bernardo, uma das principais cidades industriais do país, sofre ainda mais. O país virou as costas para a indústria nos governos do PT e continua assim no governo Bolsonaro. O colapso da produção automobilística é a face mais escancarada dessa crise. Em São Bernardo, o fechamento da Ford provocou uma crise sistêmica, atingindo toda a cadeia produtiva.

Pessoas perderam seus postos de trabalho, empresas encerraram suas atividades, famílias queimaram suas reservas. Desde o ano passado, mais de 3 mil empresas encerraram suas atividades em nossa cidade. Junta-se a isso, o aumento da inflação, principalmente de combustíveis e alimentos, e chega-se a esse quadro catastrófico. Muitas famílias não comem mais carne. Daqui a pouco, nem ovo vai conseguir comer. Até quem tem emprego pode morrer de tristeza. Ou do vírus.

O governo federal, nesse momento mais sombrio, optou por ajudar com recursos, mas errou nos exemplos. Se é verdade que um pai para ensinar um filho a andar tem que primeiro ficar em pé, não se pode dizer que para criar um filho basta enviar dinheiro. Aliás, educar pelo exemplo é sempre mais eficiente. E quais foram os exemplos pessoais que nosso presidente deu para a nação?

Enquanto o Brasil agoniza na pandemia, seguimos num governo de improvisos, que demonstra pensar mais na reeleição do que no combate ao vírus. O governo segue com uma agenda liberal de fachada, que jamais saiu do papel.  Um governo que demonstra estar  à serviço do mercado, não da economia real. Um governo burocrático e analógico em um mundo digital.

Precisamos urgentemente de um pacto nacional de salvação. Talvez o governo federal nem tenha percebido, mas ignorou os municípios, que não foram sequer convidados para a reunião que criou um comitê nacional para coordenar o enfrentamento à pandemia.

É necessário tomar medidas coordenadas, como restrições na circulação de pessoas, uso de máscara e álcool gel para enfrentar a pandemia, além de uma coordenação mais efetiva do Ministério da Saúde e do presidente para a distribuição de remédios e recursos que mantenham o atendimento de saúde funcionando. Um lockdown nacional  é uma medida dolorosa, mas é necessária e capaz de segurar a transmissão do vírus e reverter o colapso do sistema de saúde. Caso contrário, viveremos um caos ainda maior, com pessoas morrendo em casa e nas ruas sem acesso a atendimento. Pelo menos assim, encaramos de frente um problema e, ato seguinte, vamos enfrentar os problemas da economia. Temos que resolver os dois problemas e não usar um para esconder o outro!

Era urgente uma mudança de postura do presidente e, nos últimos dias, parece que finalmente se arrependeu dos seus atos e começou a usar máscara, resolveu incentivar a compra de vacinas e começou a tentar minimizar seus péssimos exemplos. A mesma urgência da mudança de comportamento do presidente, ocorre com a necessidade da prorrogação do pagamento de dívidas dos municípios com a Previdência Social, a Caixa e o Banco do Brasil, além da criação de linhas de crédito para a compra e vacinas, medicamentos, insumos de saúde e para a criação de leitos.  Como o presidente prometeu na campanha e jamais implementou, é preciso olhar mais para o Brasil real, que vive nos municípios. É preciso de mais Brasil e menos Brasília.

Prefeitos e governadores, em sua maioria, têm feito seu trabalho correto, baseado na ciência, mesmo com poucos recursos. Quem sabe agora o governo federal se torne mais presente, deixe definitivamente de negar a pandemia e coordene pra valer os impactos na saúde e na economia, atendendo aos municípios e principalmente mudando seus exemplos para que finalmente a nação brasileira possa colocar em prática um ditado simples que meu pai sempre dizia: “Sou maior de idade e vacinado, agora posso ir”.

*Orlando Morando, prefeito de São Bernardo do Campo

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