Nefelibata da esperança

Nefelibata da esperança

João Linhares*

01 de janeiro de 2022 | 06h00

João Linhares Júnior. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Não voo alto como os poderosos jatos dos abastados.

Tenho medo de altura,

exceto quando subo num carvalho para espiar o horizonte;

tampouco corro como os portentosos veículos dos milionários.

Receio velocidade.

Quanto mais célere,

mais depressa a vida passa…

Perde-se algo extraordinário:

a sesta do almoço,

o espreguiçar do cachorro

que te lambe e abraça.

Perde-se o espanto

com as coisas (quase) imperceptíveis,

mas que trazem escólios,

alguns dos quais indefectíveis.

Perde-se o encanto,

pululam imbróglios…

E, nessa toada, de quando em vez,

exsurge o pranto,

cora-se a tez…

E se deixa de lobrigar as inquietudes

das preciosas filigranas,

enormes pórticos,

de raras pulcritudes

que nos burilam.

Mentes insanas?

Talvez sejam apenas pensamentos módicos…

Só sou veloz quando aposto corrida com os jabutis

ou quando apanho, no pé, as jabuticabas.

Brindo aos céus e celebro como os guris!

Corro pelas bordas,

pelas beiradas…

A cesta de jabuticabas de fartura transborda,

num negrume sem fim.

Prefiro ir devagarzinho,

sem ser manietado,

mirando as formigas,

seguindo o caminho

por mim traçado,

construindo com meus amigos,

sem intrigas,

sempre em frente,

rumo ao nada e ao tudo,

perseguindo o ânimo do vento

e a fé da esperança,

esta fecunda semente

que dá à luz o rebento.

E quando alcanço,

grito:

heureca!

Todavia, persiste o arcano.

Ele insiste, subsiste

e minha curiosidade jamais desiste.

Procuro a mim mesmo…

Amiúde, encontro-me,

entretanto, brevemente,

já me perco

novamente.

Minha gênese

e a minha gente são estas!

Coisa alguma interessa se não são chiques,

se não usam roupas caras,

se não são imponentes.

Importa é a alegria no sorriso,

o pão conquistado com labor decente

e que a única máscara

que se usa é contra a doença.

Agir com siso,

sem rancor,

sem trapaça!

Princípios de berço,

de nascença.

São caridosos,

independentes de crença.

A generosidade é uma nuvem que traz água ao deserto

e faz nascer aquela flor do poeta que rompe o asfalto.

Sente-se a fragrância da esperança!

Na isagoge deste ano,

prometo não seguir a bíblia do esperto,

muito menos a do pateta e incauto…

Serei acólito da gratidão!!!

Quero ovacionar a vitória da vida sobre a morte;

rogarei paz e tolerância

– uma dupla consorte –

estas desconhecidas destes tempos…

Festejarei a derrota do negacionismo para a ciência,

a pujança da democracia sobre a perversão,

a busca de um seguro norte

e de maior amor, empatia e decência.

Há quem também se importe?

No epílogo do ano, esses augúrios

deixarão de ser meros prenúncios.

Esta é a minha prece.

Celebraremos juntos!!!

Sim, por ora, apenas agradeço

ao rezar o terço,

embalado por uma contínua e contagiante dança,

com o viço da minha irmã:

esperança!

E ela está batendo à nossa porta:

toc toc toc!

Me ajuda a recebê-la?

*João Linhares, integrante da Academia Maçônica de Letras de MS. Promotor de Justiça desde 2000. Mestre em Garantismo e Processo Penal pela Universidade de Girona, Espanha. Especialista em Jurisdição Constitucional e Direitos Fundamentais pela PUC – RJ

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