Necessidades x futilidades

Necessidades x futilidades

Fernando Goldsztein*

04 de junho de 2022 | 05h00

Fernando Goldsztein. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Abraham Maslow foi um psicólogo americano nascido no inicio do século XX. Ficou mundialmente conhecido por criar a hierarquia das necessidades humanas, mais conhecida como a “Pirâmide de Maslow”.  Ele classificou as necessidades do ser humano em cinco grandes categorias, que vão desde a sobrevivência até a completa realização pessoal. São elas:

1) fisiológicas, que são essenciais para a sobrevivência (o ar, a comida, a água, o sexo, etc).

2) segurança, que são preenchidas pela família e pela própria sociedade (a liberdade, a assistência médica, a proteção, a educação, etc).

3) amor e sentimento de pertencimento.

4) auto estima e reputação.

5) a completa realização pessoal.

Evidente que poucas pessoas conseguem chegar ao topo da pirâmide. Até porque, a maioria da população vive entre os dois primeiros níveis, isto é, sobrevive.

Maslow morreu em 1970 portanto, sem ver o salto tecnológico que vivemos nos últimos 50 anos e tudo que decorreu a partir de então. A velocidade das novas tecnologias e inovações vai muito além da nossa capacidade de absorvê-las. Lembro bem dos tempos que era necessário levantar do sofá para trocar o canal da televisão. Aliás, eram apenas cinco canais disponíveis. Muito diferente dos quase quinhentos que temos hoje em dia. E quem ainda lembra que, “antigamente”, possuíamos calculadora, máquina fotográfica, filmadora, relógio de pulso, relógio despertador, aparelho de som, lanterna, bloco de notas, calendário, dicionário, bússola, gps e tantos outros aparatos?  Hoje, tudo está milagrosa e maravilhosamente comprimido dentro dos nossos smartphones.

Assim, vamos nos rendendo às novidades e, mais do que isso, delas tornando-nos dependentes. Que atire a primeira pedra quem consegue passar uma hora do dia longe do seu smartphone… .

Porém, como tudo na vida, precisamos de limites. Outro dia visitei uma loja chamada Container Store aqui  em Washington. Trata-se de uma rede enorme que tem filiais em todas as principais cidades americanas. A loja é especializada tão somente em containers, isto é, produtos que servem para guardar e organizar coisas. Existe tudo o que você possa ou, eventualmente, não possa imaginar. Caixas, caixinhas e caixotes de todos os tipos, materiais e cores; potes variadíssimos para armazenar alimentos e produtos de higiene; uma infinidade de arquivos; prateleiras, estojos, divisórias de gavetas, baús e muito, muito mais. Vale a pena conhecer. É  impossível sair de lá sem levar alguma coisa para organizar melhor a sua casa ou seu o ambiente de trabalho. Confesso que não sabia que havia tantas coisas “armazenáveis” na minha vida.

Mas, a surpresa mesmo estava na saída. Logo antes de pagar, se passa por uma última gôndola estrategicamente posicionada junto ao caixa. Tentam, obviamente, tomar mais uns dólares dos clientes na saideira. Até aí tudo bem, todos os supermercados fazem isso. O que chamou a minha atenção é que eram utensílios de cozinha muito curiosos, para dizer o mínimo. Eu nunca havia visto nada parecido e jamais imaginei que pudessem existir objetos tão específicos para a culinária. Havia ali, acredite se quiser, descascador de morangos, cortador de bananas, escova para retirar a “barba” da espiga de milho, “descaroçador” de pimentão, anel para fritar ovos, colher especial para fazer bolinhas de mamão, entre outros. Haja dinheiro no bolso e espaço na cozinha para comprar e guardar tantas bugigangas. Será que realmente chegamos ao ponto de ser necessário um descascador de morangos em casa?  Convenhamos, o que diria Maslow de tudo isso?

*Fernando Goldsztein, empresário. Fundador, www.mbinitiative.org

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