‘Não vou subir em palanque’, garantiu Moro, o superministro de Bolsonaro

‘Não vou subir em palanque’, garantiu Moro, o superministro de Bolsonaro

Na primeira e última entrevista coletiva da Lava Jato, juiz explicou razões que o levaram a integrar futuro governo de Jair Bolsonaro e fez homenagem à imprensa livre

Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso e Fausto Macedo

07 Novembro 2018 | 12h30

Sem a toga de juiz federal que o cobriu nos últimos 22 anos de vida, Sérgio Moro falou ontem pela primeira vez como futuro ministro da Justiça e da Segurança Pública.  Em uma hora e trinta minutos meia de entrevista, explicou as razões profissionais e pessoais que o levaram a aceitar o convite para integrar o governo do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) e homenageou a imprensa livre.

Na primeira e última entrevista coletiva dada à imprensa, nos cinco anos em que esteve à frente dos processos da Operação Lava Jato, Moro não deixou pergunta sem resposta: rebateu acusações de uso político das investigações e de perseguição ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pontuou como foi o convite para assumir o ministério, defendeu Bolsonaro das críticas de extremista, falou em “convergências” e “divergências” de ideias e delineou suas prioridades para a Pasta, o combate à corrupção e ao crime organizado, em especial as facções criminosas.

“Não tenho nenhuma pretensão a concorrer a cargos eleitorais a subir em palanque”, garantiu Moro, ao tentar por fim à polêmica de que ele teria mudado de opinião. Em 2016, o juiz afirmou em entrevista ao Estado – a primeira à frente da Lava Jato – que “jamais entraria para a política”.

“Não contrariei afirmação que fiz há a anos ao Estado de S. Paulo, de que jamais entraria para a política. Na minha perspectiva, na minha visão, eu sigo para fazer um trabalho eminentemente técnico. Um trabalho técnico de um juiz a cargo desse ministério específico.”

Imprensa. A inédita entrevista começou na véspera: a Justiça Federal abriu credenciamento para a imprensa e informou que as perguntas seriam limitadas a uma pergunta por repórter de cada órgão de imprensa presente, e com número limitado, por ordem de chegada.

Antes mesmo das 13h, profissionais de mais de 30 veículos de comunicação (TVs, rádios, jornais e sites) chegaram ao auditório da Justiça Federal, em Curitiba, com a perspectiva de falas curtas e respostas evasivas. Exatamente às 16 horas, o horário marcado para início da entrevista, Moro iniciou sua fala com “esclarecimentos que gostaria de fazer”, um deles, voltado aos profissionais de imprensa presentes.

“Desde que aceitei esse honrado convite para compor o Ministério da Justiça e da Segurança Pública, para mim tem sido uma despedida da magistratura e da Operação Lava Jato a cada dia”, afirmou Moro. “Tenho recebido diversos pedidos de entrevistas de jornalistas alguns que já conheci durante a Operação Lava Jato e realizar essa coletiva foi a forma que eu reputei apropriada para atender todas essas solicitações individuais.”

Principal artífice da maior operação de combate à corrupção do Brasil, Moro destacou o papel da imprensa. “Procurei fazer (a entrevista coletiva) não só pelo esclarecimento necessário para responder as questões, mas também, de certa forma, em homenagem ao trabalho que imprensa realizou durante toda a Operação Lava Jato.”

Para ele, a imprensa foi “pontualmente crítica” ao seu trabalho e à Lava Jato. “Não vou reconhecer o acerto de todas essas críticas, acho que parte delas não foram tão corretas, algumas talvez tenham sido injustas, mas é o papel da imprensa realizar essas críticas, não vejo problema. Faz parte de um ambiente de debate, de diálogo e de tolerância.”

Moro defendeu que a “liberdade de imprensa foi fundamental na Operação Lava Jato porque informou a população desses crimes que foram descobertos, investigados e punidos”. “Então essa entrevista tem também esse papel de render uma homenagem ao papel da imprensa.”

Futuro. Por vinte minutos iniciais da entrevista coletiva, Moro fez “breves reflexões sobre o passado e sobre o futuro”. Para ele, a Lava Jato quebrou a tradição de impunidade no Brasil, mas “sempre houve a dúvida perturbadora” se ela seria “uma exceção ou uma mudança de patamar do tratamento institucional para esses crimes”.

“O que mais me perturbava é que um dia a minha sorte e a da Lava Jato poderia ser encerrada. Não faltaram momentos de tensão ao longo da operação.”

O juiz explicou que seu objetivo no governo federal é o de “realizar o que não foi feito nos últimos anos de buscar implantar uma forte agenda anticorrupção” e “uma forte agenda anticrime organizado”.

“Não é um projeto de poder, é de fazer a coisa certa.”

Oportunidade. Moro avaliou enxergar uma oportunidade de mudança efetiva no combate à corrupção e ao crime organizado com a eleição de Bolsonaro, que foi defendido por ele como alguém “moderado” e alvo de um “falso receio”.

O juiz apresentou algumas de suas propostas para o Ministério da Justiça e da Segurança Pública e prometeu entregar em seis meses um primeiro pacote de alterações legais ao Congresso para viabilizar seus planos anticorrupção e anticrime organizado.

“Não tenho todas as soluções e não digo que vai ser fácil, mas pretendo conversar com os membros do governo que tem mais experiência política do que eu, com o próprio presidente eleito”, disse Moro.

“Ele (Bolsonaro) ter ganho essas eleições nas circunstâncias em que ganhou, com poucos recursos financeiros, com pouca exposição na mídia televisiva e com uma abordagem muitas vezes, em geral pela mídia impressa, bastante crítica, é realmente algo significativo. Isso lhe dá um capital político para efetuar mudanças relevante desse futuro próximo.”

Para o juiz – que tirou férias e pede exoneração do cargo antes de sua nomeação de ministro -, o momento atual deve facilitar a discussão com o Congresso. “Tenho uma expectativa, e posso estar eventualmente equivocado, que seja possível com o debate com o conhecimento aprovar esse primeiro pacote num período aí talvez de seis meses.”

Moro, futuro superministro, refutou as críticas de que perseguiu politicamente o ex-presidente Lula na Lava Jato e ao aceitar o convite para integrar o governo Bolsonaro. “Não posso pautar a minha vida com base numa fantasia, num álibi falso de perseguição política.”

“Aceitei esse convite, porque entendi que havia convergências importantes, especialmente no que se refere a essa agenda anticorrupção e anticrime organizado, deixando muito claro que tudo seria realizado com base, e essa é a posição firme do presidente eleito, na Constituição, nas leis e nos direitos fundamentais.”