Não trabalhe com o que você ama

Não trabalhe com o que você ama

Cassio Grinberg*

22 de abril de 2019 | 08h00

Cassio Grinberg. FOTO: DIVULGAÇÃO

Recebemos, com cada vez mais frequência, as mesmas variantes do mesmo conselho: trabalhe com aquilo que você ama. É inclusive famosa a frase “trabalhe com o que você ama, e nunca mais precisará trabalhar”. Mas o que acontece quando aquilo que a gente ama termina não nos levando a lugar algum?

Pesquisadores da Universidade de Stanford recentemente finalizaram um estudo cujos achados não chegam a ser surpreendentes: ao contrário do conselho padrão, e em que pese a importância do propósito empresarial – e da necessidade urgente de as empresas começarem a resolver problemas de verdade -, grande parte dos profissionais e também empresas bem sucedidas tiveram sucesso em uma atividade pela qual não eram apaixonados. E o motivo é quase sempre o mesmo: é plenamente possível ir se apaixonando por algo no qual vamos nos tornando cada vez melhores.

Esquecemos, por outro lado, que trabalho é diferente de hobby: colocar no nosso trabalho a mesma energia e disciplina que colocamos num hobby é uma fórmula para o fracasso, e muitas das atividades ligadas às artes infelizmente não trazem retorno financeiro algum. Principalmente em países como o Brasil.

O mesmo se aplica ao plano pessoal: imagine quantos casamentos se mantiveram de pé fundados na base da paixão avassaladora? Agora faça um teste: quantos dos casamentos duradouros ao seu redor nem sempre iniciaram com pessoas urgentemente apaixonadas, mas sim com dois seres humanos dispostos a desaprender e aprender incrementalmente o sentido de conquistar (e mesmo perder) um pouco a cada dia?

Num mundo de aprendizagens possíveis, em que o desafio de aprender um ofício (já se fala em contratação sem diploma) é bem menor que o de não perder o foco, temos cada vez mais condições de buscar encontrar um trabalho com o qual temos afinidade. Deveríamos, no fim das contas, prestar mais atenção nos caminhos que nos levam aos sucessos possíveis do que na estrada da utopia do amor que não paga nosso aluguel.

*Cassio Grinberg, sócio da Grinberg Consulting

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