Não terceirize o essencial

Não terceirize o essencial

Cassio Grinberg*

20 de agosto de 2019 | 08h00

Cassio Grinberg. FOTO: DIVULGAÇÃO

Aprendemos, em certo momento da vida, que delegar é fundamental. Mas aprendemos, bem antes disso, que não existe nada mais interessante do que fuçar, desmontar — e descobrir — com as próprias mãos. Algo que, no entanto, vamos desaprendendo com o tempo.

Michael Dell, fundador da Dell Computers, costumava desmontar computadores para entender o que havia dentro. E com isso descobriu como funcionavam os circuitos, o tipo de conexões e materiais usados — e passou a comprar peças melhores e fazer upgrades em máquinas em seu próprio dormitório na Universidade do Texas Austin, revendendo depois os computadores. Com isso, largou a faculdade de Medicina, e fundou a Dell.

Enquanto isso, em nossas empresas, falamos em colocar o consumidor no centro, mas, na prática, insistimos em empilhar níveis como quem equilibra pratos. E com isso criamos camadas que nos afastam do coração do que importa. Na ilusão de nos sentirmos protegidos, nos esquecemos de que, quanto mais seguros tentamos nos sentir, mais medo passamos a ter. Não satisfeitos, repetimos o engano em nossas casas: delegamos a avós e babás, professores e depois terapeutas, surpresos de que algo, no fim das contas, fugiu de nosso controle.

Fazer com as próprias mãos nos dá a oportunidade de não terceirizarmos o essencial. E com isso estarmos mais perto de quem realmente amamos e somos. A tecnologia nos oportuniza a liberdade de aprender o que quisermos, mas terminamos por passar procurando a felicidade nas redes, na régua de modelos que apenas pensamos existir — ou, pior, investir nossos preciosos minutos antes de dormir metidos em grupos virtuais que possivelmente não nos aproximarão de quem está longe na mesma medida em que nos afastarão de quem está bem perto.

Não quer desmontar seu computador? Então faça uma experiência: troque a pilha do brinquedo de seu filho: trocar a pilha do brinquedo de um filho é trocar a própria pilha. Aproveite que está com a chave-de-fenda na mão, e convide-o a explorar um pouco mais. Talvez vocês dois descubram como a curiosidade ainda é o melhor que temos dentro de nós.

*Cassio Grinberg, sócio da Grinberg Consulting

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