Não tem mais emprego

Não tem mais emprego

José Renato Nalini*

30 de junho de 2021 | 12h37

Pouca gente parece perceber que o mundo mudou e a população cresceu, sem que o Estado providenciasse o crescimento proporcional de um mercado de trabalho apto a abrigar as novas gerações.

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

A busca do emprego se converteu num exercício de garimpagem num veio esgotado. São milhões os jovens brasileiros que não têm perspectiva de sobrevivência digna. Integram a geração “nem-nem-nem”: nem estudam, nem trabalham, não estão “nem aí”.

A velha noção de que um emprego garantiria estabilidade para uma vida toda, foi substituída por escandalosa carência de postos de trabalho. Enquanto a população aumentou exponencialmente, os empregos acabaram aritmeticamente.

Não que faltem oportunidades para resolver problemas de toda ordem. Faltam é iniciativas compatíveis com a urgência de aproveitamento do enorme potencial de uma juventude apta a desempenho profícuo, mas que não sabe por onde começar.

A desindustrialização do Brasil é um fato evidente. Quantas foram as empresas que deixaram esta República nos últimos anos? E a migração ainda não terminou. O ambiente negocial é inseguro sob todas as óticas pelas quais vier a ser encarado.

O governo é imprevisível e abúlico. Pródigo em discursos, deficiente em ação. Não se desconhece quais as reformas devam ser feitas. Mas elas não saem. A mudança de que o Brasil precisa é refém de interesses mesquinhos e personalíssimos.

Um Estado que espolia a cidadania contribuinte, não devolve o mínimo em prestações estatais típicas ao Estado Providência, é uma carga excessiva sobre o combalido e desesperançado povo.
Entretanto, existe uma lucidez residual que precisaria assumir as rédeas de uma revolução cultural que devolvesse ânimo à população frustrada. Mostrar que a sobrevivência da nacionalidade se vincula à exploração das sendas abertas pela mutação disruptiva em pleno curso.

O Brasil desperdiçou as chances de se tornar uma nação competitiva. Não acreditou em educação, apesar de advertências muito bem fundamentadas, como as do economista Carlos Geraldo Langoni, que na década de 70 já provara que investimento em formação humana é mais rentável do que o velho negócio que só existe para ganhar dinheiro.

Sem poder competir com o Primeiro Mundo na indústria que hoje atrai dinheiro e inteligência, precisa redescobrir a vocação nacional. Ela é muito mais abrangente do que a exportação de commodities que faz do Brasil o “Fazendão” fornecedor de alimento para gente e para animais do restante do mundo.

Este território foi privilegiado com uma exuberante biodiversidade. Ela poderá garantir o futuro dos brasileiros, desde que cesse, de imediato, a covarde destruição de todos os biomas e se invista pesadamente em bioeconomia.

Quantos poderão ser os produtos da indústria farmacêutica, alimentícia e cosmética, extraíveis de nossa flora ainda ignorada em sua maior parte? porque não estimular as novas gerações a estudarem com afinco botânica, biologia, química e técnica de fabricação de produtos ainda inexistentes?

O turismo é uma outra indústria lucrativa, que já salvou a economia de inúmeros países, dentre os quais o caso mais emblemático é a Espanha. O Brasil possui todas as vantagens em tal setor, que seriam irresistível chamariz para os ricos do planeta, fosse oferecida, além dos atrativos naturais, Infraestrutura, efetiva segurança e aprimoramento na esfera de serviços. Deixamos muito a desejar nessas três pré-condições para um turismo de qualidade.

A mocidade brasileira também concentra um patrimônio intangível de criatividade, vontade de empreender, adaptabilidade e resiliência. Propiciar a ela uma formação turística profissional mostraria que o país pode se tornar um dos mais procurados de todo o globo e receber o vultoso volume financeiro que essa indústria movimenta e que vai para os cofres de nações que não têm tanto a oferecer, mas sabem vender o seu produto.

Outro setor que não está sendo apenas negligenciado, mas até perseguido pelo obscurantismo ignorante, é o das artes. Música, teatro, artes plásticas, cinema, games, aplicativos, tudo isso alavancou a economia de países que não hostilizaram a criatividade, mas nela viram solução para as suas crises.

Embora os empregos tradicionais tenham minguado e tendam a desaparecer, infinitas chances podem ser vislumbradas, desde que se tenha coragem para tirar a venda dos olhos. Mas isso tem de ser iniciativa do setor privado. Aquele que, a despeito de um governo inimigo, conseguiu subsistir e adaptar-se aos novos ritmos e rumos de uma sociedade em constante efervescência.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e  presidente da Academia Paulista de Letras – gestão 2021 – 2022

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