Não subestime a credulidade

Não subestime a credulidade

José Renato Nalini*

03 de fevereiro de 2022 | 11h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Por que existe e ainda é praticado o estelionato? Porque as vítimas colaboram. Praticamente se acumpliciam com o criminoso e mergulham em suas invenções. É algo inacreditável. Pessoas letradas, eruditas, são vítimas dos mais incríveis contos. Entregam-se, espontaneamente, às falcatruas.

O drama dessa inocência que tangencia a simploriedade, quando não a ignorância, é que vastas parcelas de pessoas embarcam nas versões, desprezando a verdade. As teses conspiratórias, o negacionismo, a militância ativa contra a vacina, o terraplanismo, tudo isso ainda existe e está mais próximo de nós do que gostaríamos.

O pior é quando a informação errônea vem de pseudocientistas. Contratados pelo setor econômico interessado. Fatos reais, como o da indústria do tabaco, a financiar estudos tendentes a desvincular o fumo do câncer. Ou uma parcela do negócio sucroalcooleiro a divulgar teses comprobatórias de que a fauna do canavial é superior, em biodiversidade, àquela da Mata Atlântica.

Os cineastas exploraram bastante essa patologia. Quem puder, assista “Uma verdade inconveniente”, sobre o aquecimento global. Há também “A Campanha contra o clima”, um documentário que mostra como as maiores petroleiras do planeta financiam, há décadas, campanhas que afirmam que o aquecimento global não existe. São elas que também patrocinam livros como “O ambientalista cético”, que hoje – depois do que o mundo está a registrar, entre incêndios, tufões, furacões, inundações e secas – estará onde e falando o que?

Essa campanha, bem articulada, influencia eleições. Conquista adeptos que chegam a ser Ministros de Estado. Há um outro bom documentário, “Fake News: baseado em fatos reais”, em que o fenômeno é mostrado em países como Rússia e Macedônia, para avaliar os efeitos das notícias falsas veiculadas na internet.

São entrevistados jornalistas e também um jovem de dezenove anos, que ganha dinheiro para publicar notícias faltas nas redes sociais. No filme “Privacidade Hackeada”, explica-se o que ocorreu com a Cambridge Analytica, a empresa que ajudou a campanha de Donald Trump e também fez com que o Brexit fosse aprovado na Grã-Bretanha, mediante uma espécie de terrorismo digital, sempre veiculando falsidades.

Parece surreal, mas não é. Ainda há quem acredite que a Terra é plana, lembra uma pizza, e não uma laranja ou maçã. O documentário ‘A Terra é Plana” entrevista os líderes desse movimento que grassa nos Estados Unidos e também possui adeptos aqui no Brasil. Por mais que a ciência evidencie a forma esférica, as naves intergalácticas tenham fotografado o planeta, a crença persiste.

Em 1996, na Inglaterra, a pesquisadora Deborah Lipstadt, especialista no Holocausto, foi processada por David Irving, um negacionista que insiste em asseverar que não existiu o sacrifício dos judeus nos campos de extermínio nazista. O processo judicial rendeu o filme “Negação”, dirigido por Mick Jackson e disponível no You Tube.

Todos os brasileiros temos noção de que há um campo minado na desinformação, na ideologização de inverdades com vistas a convencer os incautos de que existe uma grande conspiração universal que tem o Brasil como alvo. Dois filmes tratam disso e são bem elucidativos. O primeiro é “Cercados”, que examina a atuação da imprensa durante a pandemia da Covid19 em nosso país e mostra as dificuldades no combate ao negacionismo e as fake News sobre o vírus que continua a matar mais de cem brasileiros por dia e cuja cifra, em 16.1.22, já ultrapassava os 621 mil.

O segundo é “A conspiração antivacina”, que narra como surgiu o movimento contra as vacinas, fazendo o Brasil reviver o bizarro episódio da “Revolta da Vacina” quando da gripe espanhola em 1918. Há lideranças nesse movimento, uma delas é Andrew Wakefield, médico britânico que publicou em 1998, um estudo manipulado em que relacionava o autismo ao uso da vacina tríplice viral, que protege contra sarampo e caxumba.

Mas entre nós, há médicos que acreditam – ou pelo menos propalam acreditar – que a vacina modificará o DNA do imunizado, ou que este se transformará num jacaré, ou que contrairá AIDs, ou que receberá um chip e seus dados serão imediatamente conhecidos pela China.

Daí o sucesso do filme “Não olhe para cima”, que é bem a situação do mundo – e, nele, do Brasil, – quanto à descrença em tudo o que está hoje escancarado: o aquecimento global, causador dos desastres ambientais na Bahia, Minas, Goiás, a seca no Rio Grande do Sul, o criminoso desmatamento da Amazônia e de todos os biomas. Meryl Streep, como presidente dos Estados Unidos, está mais preocupada com sua reeleição do que no objeto do espaço que colidirá com a Terra e fará desaparecer toda espécie de vida nela existente.

Nada que nos recorde o Brasil de hoje, com sua legião de defensores da antivacina, que acreditam que não há aquecimento global, que a Terra é plana e que há “salvadores da Pátria”. Não subestimemos a credulidade dos humanos. Podemos ser vítimas dela.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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