Não sou só doleiro, sempre tive atividade lícita e paguei impostos, afirma Youssef

Delator da Lava Jato afirmou que 'poderia ter ficado em casa' com o dinheiro que ganhou no escândalo do Banestado, mas preferiu correr o risco de abrir uma empresa

Redação

01 Abril 2015 | 04h30

Por Mateus Coutinho, Ricardo Brandt e Julia Affonso

Após mais de um ano preso na Lava Jato, o doleiro Alberto Youssef aproveitou seu novo depoimento à Justiça Federal no Paraná nesta terça-feira, 31, para fazer um “desabafo”. “Na verdade eu não sou só doleiro, sempre tive atividade lícita que era ter empresa, dar empregos, pagar impostos, e isso é o que eu sempre fiz”, afirmou o doleiro ao juiz Sérgio Moro, que conduz as ações da Lava Jato.

Ele chegou ainda a citar o escândalo do Banestado, no qual também atuou como doleiro, para justificar seu argumento. “Eu podia muito bem ter ficado com aquele dinheiro do(escândalo do) Banestado e ter ficado em casa, mas não, preferi investir esse dinheiro no mercado e correr o risco que o empresário corre no Pais hoje em montar empresa, dar emprego e pagar impostos”, continuou o doleiro que foi logo interrompido pelo juiz: “Tá bom né senhor Alberto, mas o senhor se envolveu depois nestes episódios aí da Petrobrás também”. “Infelizmente excelência, infelizmente”, respondeu Youssef com um leve sorriso no rosto.

Moro, que condenou Youssef no caso Banestado – escândalo de lavagem de US$ 30 bilhões no banco do Estado do Paraná na década de 1990 – e já o chamou de “criminoso profissional” em uma sentença dada no ano passado, se mostra incrédulo com a versão e ainda pergunta se Youssef teria deixado a atividade de doleiro:

“Sérgio Moro: Pelo que entendi o senhor abandonou mesmo a atividade de doleiro?”

“Alberto Youssef: Eu abandonei a atividade de doleiro

“Sérgio Moro: Mas se envolveu no negócio da Petrobrás”

“Alberto Youssef: Mas me envolvi no negócio da Petrobrás, infelizmente, mais uma vez”

VEJA O ‘DESABAFO’ DE YOUSSEF A PARTIR DE 18:50 MIN:

O “desabafo” do doleiro, e o consequente diálogo dele com Moro, começou após o juiz indagar Youssef sobre o dinheiro lavado no exterior que ele aplicou em sua empresa GFD Investimentos. Diferente de outras companhias apenas de fachada utilizadas por Youssef, esta empresa foi criada para que ele realizasse investimentos em diversas áreas, como o setor hoteleiro no qual ele adquiriu vários empreendimentos, e também “esquentasse” o dinheiro de origem ilícita.

A GFD foi criada depois da saída de Youssef da prisão em 2004, após ele ser detido pela primeira vez no caso Banestado, em 2003, e ter firmado um acordo de delação premiada. Ao ser pego novamente na Lava Jato, Youssef perdeu as garantias que ele possuía na primeira delação, e quatro ações contra ele do Banestado que estavam paradas voltaram a tramitar na Justiça Federal no Paraná. No ano passado ele foi condenado a 4 anos e 4 meses de prisão em uma delas, na qual ele era acusado de pagar propina para conseguir empréstimo de US$ 1,5 milhão no Banestado para o caixa 2 de campanha do então candidato ao governo do Paraná Jaime Lerner (DEM), em 1998.

Atualmente, Youssef está preso em caráter preventivo e poderá ficar no máximo cinco anos presos como parte das 23 cláusulas de seu acordo firmado com o Ministério Público Federal, que prevê ainda que ele devolva suas propriedades e participações que possui em empresas.

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