‘Não Somos Anjinhos’

‘Não Somos Anjinhos’

'Quando desenho uma criança em uma cadeira de rodas, dou visibilidade a todas as crianças'

Gusti Rosemffet*

11 Novembro 2018 | 07h00

FOTO: DIVULGAÇÃO

Sou escritor e ilustrador, vivo em Barcelona, e estive no Brasil por 20 dias para o lançamento de meu livro infantil Não somos anjinhos, publicado pela Solisluna Editora que tem como personagem principal um menino com Síndrome de Down. Neste livro, escrevi com humor sobre a infância de uma criança e a vida de sua família, subvertendo a imagem que costumam associar às crianças Down, como “presentes de Deus” ou seres que são sempre calmos ou afetuosos. Sou pai de Malko, que tem Síndrome de Down, e quis tratar com afeto e leveza meu cotidiano com ele e episódios que marcam a infância de qualquer criança, com ou sem deficiência.

Após o nascimento de meu filho, passei a ter outro olhar sobre a inclusão em meus trabalhos. Tento não criar personagens perfeitos, como o “Homem Vitruviano” (1490), famoso desenho de Leonardo da Vinci que retrata um homem nu, com braços e pernas esticados dentro dos limites de um círculo e de um quadrado.

Um personagem sem um braço, por exemplo, não caberia nesse modelo de da Vinci. Antes, costumava desenhar crianças dentro de um “padrão de beleza e alegria” e agora desenho crianças diferentes.

Não se trata de abordar a deficiência. Esta é uma forma de ver a diversidade e, quando aceitamos isso, a inclusão ganha mais espaço. Quando desenho uma criança em uma cadeira de rodas, dou visibilidade a todas as crianças. Em meus desenhos ou histórias, não faço algo educativo ou com intenção pedagógica, simplesmente procuro olhar além.

Durante minha estadia em São Paulo, fiz várias ações com a Mais Diferenças, uma ONG que trabalha com educação e cultura inclusivas, e a convite dessa organização participei de um seminário com profissionais da Educação Infantil sobre práticas pedagógicas inclusivas.

O evento faz parte do Projeto Brincar, que é uma iniciativa da Fundação Volkswagen, realizada em parceria com a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo e a Mais Diferenças. Nesse seminário, Compartilhei com eles minha experiência de trabalho de criação artística na organização Windown, localizada em Barcelona, e falei sobre a relação potente que se pode estabelecer com pessoas de diferentes características por meio da arte.

A Windown existe há cerca de quatro anos e foi inspirada na ideia de um amigo que vive no México. Dei o nome Windown para brincar com a palavra da língua inglesa “window” (janela, em português) e acrescentei o “n” ao final para associar à Síndrome de Down. Esse amigo também trabalha com essa associação no México, mas como não gosta de palavras estrangeiras, nesse país ela é conhecida como Ventana (janela, em espanhol).

Somos uma organização pequena, formada por quatro pessoas, que também desenvolvem outros trabalhos. Realizamos uma oficina semanal, com duração de duas horas, em um centro cultural em Barcelona. O local tem uma fachada de vidros, de modo que as pessoas que passam pela calçada sempre podem nos ver trabalhando.

Nos primeiros anos, pessoas com deficiência intelectual frequentavam a Windown. Porém, depois de dois anos, mudamos nossa forma de trabalhar para uma perspectiva inclusiva. Decidimos que não podíamos mais formar uma espécie de gueto entre as pessoas por causa de sua condição. A arte é o contrário disso. Começamos a trabalhar com artistas, desenhistas, ilustradores, estudantes, pessoa com e sem deficiência.

No início, também costumávamos sugerir ideias sobre o que as pessoas poderiam criar. Contudo, em nossas sociedades, a maioria das pessoas com deficiência não conseguem decidir ou escolher coisas por si próprias.

Sempre há pessoas que decidem por elas, como uma forma de superproteção. Então, passamos a deixar que elas escolham o que querem fazer. Nós oferecemos materiais, apoios (caso em que a pessoa não consegue segurar um lápis, por exemplo), mas damos total liberdade.

Reunimos as pessoas em um mesmo espaço e todas têm as mesmas possibilidades. Cadeirantes, pessoas com autismo, pessoas com deficiência cognitiva, crianças, adultos, profissionais e pessoas que nunca desenharam podem produzir e o trabalho ganha uma identidade coletiva. Para mim, essa relação que se estabelece é mais importante que o resultado final como obra de arte.

*Gusti Rosemffet, escritor e ilustrador, é professor da pós-graduação em ilustração, na escola EINA de design, e diretor da Associação WinDown, que promove oficinas de arte com pessoas com deficiência em Barcelona

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