‘Não solicitei, não recebi, não paguei e não tenho nenhum tríplex’, diz Lula

‘Não solicitei, não recebi, não paguei e não tenho nenhum tríplex’, diz Lula

Lula diz que propriedade e reformas de apartamento no Guarujá (SP), que seriam propina da OAS, faz parte de invenção do Ministério Público Federal e atribui a Dona Marisa interesse no negócio

Ricardo Brandt, Julia Affonso, Fausto Macedo, Luiz Vassalo e Bruno Ribeiro

10 de maio de 2017 | 20h18

Lula. Foto: Reprodução

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ao juiz federal Sérgio, nesta quarta-feira, 10, que chegou a visitar o tríplex no Guarujá (SP), mas que não solicitou nem recebeu o imóvel. O ex-presidente admitiu que visitou em fevereiro de 2014 o apartamento 164-A, do Edifício Solaris, que seria propina do esquema alvo da Operação Lava Jato, paga pela OAS, e que a ex-primeira-dama Marisa Letícia, morta em fevereiro, o “interesse no negócio”.

“A verdade e o seguinte: não solicitei, não recebi, não paguei e não tenho nenhum tríplex”, afirmou Lula, em seu primeiro momento frente a frente com o juiz da Lava Jato, em Curitiba.

“Doutor, deixa eu lhe dizer uma coisa. Se tem alguém que quer a verdade sobre mim, sou eu mesmo. Quando chegar o processo do sítio em Atibaia, terei o imenso prazer de estar aqui respondendo a verdade absoluta sobre aquilo. Agora, acho que é importante resolver o problema do triplex. Porque o Ministério Público fez uma acusação, eu diria, baseada em denúncia de imprensa.”

Moro perguntou se Lula tinha desistido do tríplex depois que ele visitou o imóvel. “O senhor decidiu que não ia ficar com esse primeiro tríplex já na primeira visita que o senhor fez em fevereiro de 2014?.”

“Foi isso. E repeti o que falei aqui três vezes Nunca solicitei e nunca recebi apartamento. Imagino que o Ministério Público vai na hora que for falar apresentar as provas. Eles devem ter pelo menos algum documento que prove o direito jurídico de propriedade para dizer que é meu o apartamento.”

Dona Marisa. O ex-presidente disse que Dona Marisa que continuou com interesse no apartamento.

“Então aquela visita, em agosto de 2014, só para eu entender, já não lhe dizia respeito? A visita que a senhora sua esposa teria feito”, quis saber Moro.

“Eu nem sabia que tinha tido a visita, doutor. Nem sempre elas perguntam para a gente o que vão fazer.”

O juiz insistiu: “Mas ela também não te relatou em seguida?”.

“Dez dias depois, ou 15 dias, ela me relatou”, respondeu Lula. “Ela disse que não teria gostado. Ela já sabia que eu não queria o apartamento. Não sei se o senhor percebeu que o apartamento foi comprado no nome da Dona Marisa.”

A denúncia do Ministério Público Federal sustenta que Lula recebeu R$ 3,7 milhões em benefício próprio – de um valor de R$ 87 milhões de corrupção – da empreiteira OAS, entre 2006 e 2012. As acusações contra Lula são relativas ao recebimento de vantagens ilícitas da empreiteira por meio do triplex 164-A no Edifício Solaris, no Guarujá (SP), e ao armazenamento de bens do acervo presidencial, mantido pela Granero de 2011 a 2016. O petista é acusado de lavagem de dinheiro e corrupção.

Moro aceitou a denúncia em 20 de setembro de 2016.

Fachada do Condomínio Solaris, no Guarujá. Foto: MOTTA JR./FUTURA PRESS

Triplex. O Edifício Solaris era da Cooperativa Habitacional dos Bancários (Bancoop), a cooperativa fundada nos anos 1990 por um núcleo do PT. Em dificuldade financeira, a Bancoop repassou para a OAS empreendimentos inacabados, o que provocou a revolta de milhares de cooperados. O ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto foi presidente da Bancoop.

A ex-primeira-dama Marisa Letícia (morta em 2017) assinou Termo de Adesão e Compromisso de Participação com a Bancoop e adquiriu ‘uma cota-parte para a implantação do empreendimento então denominado Mar Cantábrico’, atual Solaris, em abril de 2005.

Em 2009, a Bancoop repassou o empreendimento à OAS e deu duas opções aos cooperados: solicitar a devolução dos recursos financeiros integralizados no empreendimento ou adquirir uma unidade da OAS, por um valor pré-estabelecido, utilizando, como parte do pagamento, o valor já pago à Cooperativa.

Segundo a defesa de Lula, a ex-primeira-dama não exerceu a opção de compra após a OAS assumir o imóvel. Em 2015, Marisa Letícia pediu a restituição dos valores colocados no empreendimento.

Bens. A Lava Jato afirma que a OAS pagou durante cinco anos pelo aluguel de dez guarda-móveis usados para armazenar parte da mudança do ex-presidente Lula quando o petista deixou o Palácio do Planalto no segundo mandato. A empreiteira desembolsou entre janeiro de 2011 a janeiro de 2016, R$ 1,3 milhão pelos contêineres, ao custo mensal de R$ 22.536,84 cada.

Toda negociação com a transportadora Granero teria sido intermediada pelo presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, que indicou a OAS como pagante com o argumento de que a empreiteira é uma “apoiadora do Instituto Lula.” Para investigadores da Lava Jato, os fatos demonstram “fortes indícios de pagamentos dissimulados” pela OAS em favor de Lula. Isso porque o contrato se destinava a “armazenagem de materiais de escritório e mobiliário corporativo de propriedade da construtora OAS Ltda”, mas na verdade os guarda-móveis atendiam a Lula.

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