‘Não se pode considerar normal um negócio desses’, diz Marcelo sobre relação com Mantega

‘Não se pode considerar normal um negócio desses’, diz Marcelo sobre relação com Mantega

Em delação premiada, empreiteiro revela o dia a dia com ex-ministro da Fazenda

Rafael Moraes Moura / BRASÍLIA

13 de abril de 2017 | 07h57

Guido Mantega. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Guido Mantega. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Em sua delação premiada, o empreiteiro Marcelo Odebrecht reconheceu que era “errada” a sua relação com o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega. A convivência entre os dois funcionava como uma via de mão dupla: de um lado, Marcelo tinha acesso direto a Mantega, recorrendo ao ministro para resolver questões que atingiam os negócios da Odebrecht; de outro, Mantega pedia que a empreiteira, uma das maiores doadoras de campanhas eleitorais, destinasse dinheiro ao PT.

“É aquela história: você cria uma relação que é errada, uma relação que não deveria precisar. A maior parte das empresas que não tem esse acesso (direto ao ministro) não consegue nem resolver seus problemas. Na verdade, de certo modo ele (Mantega) me escutava, me dava acesso à agenda, eu podia ter reuniões com ele duas vezes por semana. É óbvio que eu também tinha essa facilidade porque eu era um grande doador”, disse Marcelo.

“As coisas que a gente levava (a Mantega) eram até coisas legítimas, pra destravar um financiamento, é o orçamento do Prosub (Programa de Desenvolvimento de Submarino). Eu não pedia nada a ele que não fosse correto, agora o errado está em que eu tinha o acesso a ele baseado em eu ser um grande doador. A grande ilicitude está aí. A gente acaba racionalizando de uma maneira errada. Mas não é normal, não se pode considerar normal um negócio desses”, reconheceu o empreiteiro.

Segundo Marcelo Odebrecht, quando Mantega o chamava para alguma reunião, já se sabia que “era para fazer o pedido de alguma coisa”.

“Ele (Mantega) me chamava pra dizer ‘Preciso que você autorize cinco pro Vaccari (João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT), ou não sei quanto’ e eu aí eu aproveitava que ele tinha me chamado e já metia uma pendência que eu tinha na época”, detalhou o executivo.

“Por exemplo, muitas vezes eu ia lá fazer pedido, e no final da reunião, (Mantega dizia) ‘Mas tem aquele nosso amigo, o Vaccari, o João Santana, precisa de 10 a 20’. Não era um vínculo direto, mas era como se fosse uma relação de mão dupla que ele tinha em mim um grande doador e eu tinha uma agenda e um acesso a ele”, comentou Marcelo.

Os vídeos das delações de executivos da empreiteira Odebrecht foram liberados pelo Supremo Tribunal Federal nesta quarta-feira, 12.

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