Não pergunte apenas para o Google

Não pergunte apenas para o Google

Cassio Grinberg*

17 de novembro de 2019 | 06h00

Cassio Grinberg. FOTO: DIVULGAÇÃO

Na rua era um vento gelado, a chuva salpicando a janela. Dentro tocava ‘Desafinado’ numa estação canadense de jazz que eu escutava nas manhãs de domingo (isso foi antes dos nossos filhos nascerem). Eu ia e voltava da cozinha à sala com as fatias de melão, o leite e o suco do café da manhã, e percebia que já era a segunda canção do Tom que aquele quarteto executava.

Então começaram a tocar ‘Luxo só’ — as boas rádios da Web adoram nossa música, e de repente me surgiu a dúvida: quem mesmo a tinha composto? Vou ligar e perguntar para o pai, pensei, meu pai que tanto conhece música, que me passou pela herança do ouvido e pelas fitas cassete na estrada o gosto pelo jazz e bossa. Mas por que me dar o trabalho, me perguntei, se o Google informaria numa consulta instantânea?

Porque o Google não atenderia o telefone com o amor aconchegante de um pai no inverno; não perguntaria como foi minha semana, não me contaria que estava vestindo o robe de chambre que eu dera de presente no Dia dos Pais. Nem, tampouco, iria cantarolar com voz afinada e tímida os versos de ‘essa mulata quando dança…’ antes de me dizer que a música era de Dorival Caymmi.

O mesmo vale para nossos mercados: uma coisa é tentar entender nossos clientes apenas pelos algoritmos do que eles dizem fazer pelas redes. Outra, é observá-los e conversar com eles no metrô, na esquina ou mesmo dentro de nossas lojas — onde ao contrário de apenas dizer, eles mostram de fato quem são, o que querem e como o estão buscando.

O Google ensina como colocar tefilim, mas sem a gravidade segura do rabino. Ele mostra como funciona o sistema digestivo, mas sem a calma estudada do médico. Ele responde quem foi Cole Porter, mas sem as imagens de Woody Allen. Da receita ele informa a medida, mas sem o truque carinhoso da mãe. Tudo indica que ele ainda permanecerá muito tempo por aqui, talvez por mais tempo do que aqueles que amamos.

Depois, confesso que até fui conferir no Google, e vi que a canção na verdade era de Ary Barroso. Mas quem se importa?

*Cassio Grinberg, sócio da Grinberg Consulting

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