Não larga o osso

Não larga o osso

Mônica Andreis e Alberto Araújo*

20 de abril de 2020 | 07h30

Foto: Regis Duvignau/REUTERS

A indústria do tabaco não larga o osso. Lucros exorbitantes a mantêm presa a seu negócio, que continua sendo o de viciar pessoas para o consumo de produtos fumígenos. Cigarros convencionais viciam, novos dispositivos eletrônicos para fumar (DEFs) também causam dependência.

As pessoas fumam porque querem, adultos têm o direito de decidir, dizem os fabricantes. Mas não dizem que a iniciação se dá na quase totalidade das vezes na adolescência. Falam em inovação para redução de danos, mas não falam que este mesmo discurso de inovação, uso de tecnologia, adição de aromas e sabores, atraem jovens para o consumo.

Jovens que se iludem como tantos fumantes hoje adultos se iludiram com o poder de sedução das propagandas, com a promessa de cigarros “light”, apresentados no passado como menos nocivos, da mesma forma como é feito hoje com os dispositivos eletrônicos para fumar.

Representantes de uma das maiores empresas de tabaco do mundo dizem que estão dispostos a parar de produzir cigarros convencionais, tal o comprometimento com os novos produtos, mas não dizem quando ou como vão fazê-lo. Chegaram a anunciar com estardalhaço a decisão como uma resolução de ano-novo em 2018, mas quando questionados a respeito de prazos desconversam. Querem garantir os lucros com a substituição de mercado, e por isso pressionam os países que não liberaram a venda dos DEFs a fazê-lo rapidamente.

Ocorre que estes novos produtos, de uma ampla variedade, também viciam e matam. E, diferentemente do que ocorre comumente com os cigarros convencionais, mataram também pessoas jovens, com apenas um ou dois anos de uso do produto.

No ano passado, jovens americanos começaram a sofrer e morrer de uma doença misteriosa, que causava uma inflamação brutal nos pulmões. Depois de um rastreamento minucioso, o Centers for Disease Control (CDC) chegou à conclusão que as vítimas eram usuários de novos dispositivos eletrônicos para fumar. A doença misteriosa, investigada pelo CDC, Food and Drug Administration (FDA) e departamentos de saúde locais, recebeu o nome de Evali (E-cigarette or Vaping product use-Associated Lung Injury, algo como doença pulmonar causada pelo cigarro eletrônico ou vaporizador).  Em um desses casos, um jovem de 17 anos precisou fazer um transplante duplo de pulmão devido à doença. Até 18 de fevereiro deste ano, haviam sido registrados 2.807 casos, com 68 mortes. A idade média dos pacientes era de 24 anos, sendo que 15% deles tinham menos de 18 anos. Outros países também registraram a doença e, no Brasil, a Anvisa fez um alerta aos hospitais para notificarem os casos.

Estes casos despertaram um grande sinal de alerta. Ainda que o uso de acetato de vitamina E e THC estivessem associados à maior parte dos casos, não justificavam a totalidade deles. Além disso, muitos DEFs, incluindo cigarro eletrônico e tabaco aquecido, contêm substâncias que são classificadas como citotóxicas e carcinogênicas pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) e não há nível seguro para exposição às substâncias com potencial de produzir mutações e câncer.

Os estudos demonstram que estes produtos não são inócuos e perpetuam a dependência, pois a maioria contém nicotina. Alguns contém a nicotina em doses bem superiores aos cigarros convencionais, gerando mais rapidamente e intensamente esta dependência. Algumas pessoas que largam o cigarro convencional e usam DEFs tendem a se considerar como ex-fumantes, mas na verdade não são, pois continuam a usar um produto fumígeno.

O Brasil tem sido reconhecido mundialmente pela política nacional de controle do tabaco, que levou a uma redução significativa de fumantes na população. O tratamento é disponibilizado no sistema único de saúde (SUS), e outras medidas alertam para os riscos de consumo e importância da prevenção ao tabagismo.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária proíbe a comercialização dos DEFs desde 2009, mas tem sido pressionada a liberá-los. A indústria do tabaco quer legaliza-los. Adivinha quem ganha com isso? Não nos deixemos iludir mais uma vez por uma indústria que vive às custas do aprisionamento de seus consumidores. Organizações de saúde apoiam a manutenção da norma da Anvisa.

Precisamos de mais saúde e não mais doença, agora mais do que nunca.

*Mônica Andreis, diretora executiva da ACT Promoção da Saúde; Alberto Araújo, pneumologista, Comissão de Combate ao Tabagismo da Associação Médica Brasileira

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