Não há o que fazer

Não há o que fazer

José Renato Nalini*

14 de maio de 2022 | 08h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIELA RAMIRO/ESTADÃO

O amor é magia, mas é também praga. Ele impulsiona as pessoas, faz com que elas busquem objetivos inimagináveis, é mais potente do que droga. Mas, como as substâncias entorpecentes, causa dependência. Desestrutura, faz perder a vontade de viver. Leva a uma espécie de loucura branda, que pode se agravar.

O que fazer quando alguém se apaixona de tal maneira, que toda a racionalidade se esvai e causa um furor psíquico explosivo, no momento em que a relação termina? Inteira razão tinham os elaboradores do Código de Hamurabi, que proibiam o testemunho de apaixonados. Estão desprovidos de discernimento. Estão fora de si.

Tenho um amigo intelectual que enfrenta o suplício da separação. Embora consentida, porque ambos chegaram à conclusão de que o convívio se tornara patológico, as recidivas doloridas mostram situação não resolvida. É como aquele dente sensível que dói ao contato de qualquer gelado. A lembrança de algum lugar especial, aquela música, alguém que se parece com o ser amado. Qualquer coisa serve para anuviar a mente esclarecida e até então sensata.

Leio que é possível se desapaixonar. A psicologia já constatou que as separações impactam o cérebro. É possível ajudar quem teve o coração despedaçado a prosseguir?

Aqueles que já sofreram separações, seja por morte, seja por divórcio ou mero “cansaço do material” em alguma relação, sabem que só o tempo ameniza. Alguns conseguem até achar graça no estado de prostração em que se viram lançados, algo que desapareceu assim que surgiu um novo amor.

O tempo é o melhor remédio. A sabedoria popular originada de uma constatação empírica. Tudo passa, só Deus não passa, dizia Tereza D’Ávila, a vigorosa Doutora da Santa Madre Igreja.

Mas há respostas científicas para o desapaixonar. Helen Fischer, antropóloga biológica e pesquisadora sênior do Instituto Kinsey, – este nome ficou célebre pelas pesquisas sexuais realizadas durante todo o século XX – afirma que se pode trabalhar essa paixonite insensata.

Depois de analisar imagens cerebrais de cem pessoas, mediante ressonância magnética para identificar os circuitos do amor romântico, descobriu que a área tegmental ventral, ou ATV, é ativada quando alguém se apaixona. É a mesma área do cérebro associada à fome e à sede e, quando existe o sentimento afetivo profundo, a paixão, surge o impulso em lugar da emoção. Ou seja: para alguém se desapaixonar, seria necessário não sentir fome quando se está faminto, ou não sentir sede quando se está sedento. Coisa fácil? Evidentemente que não.

Não há receitas certeiras para essa condição. Jogar fora todos os pertences, queimar cartas, eliminar qualquer lembrança física pode ajudar. E como é que se faz para queimar aquele poderoso arquivo da memória? Os humanos não têm controle sobre o pensamento. Ele invade, inebria, enlouquece, tudo sem pedir licença.

A antropóloga, em sua pesquisa, constatou que os laços amorosos rompidos produzem no cérebro apaixonado verdadeira dor física. Não é apenas a ansiedade vinculada à dor física. É a dor física em si.

Na tentativa de reduzir essa condição verdadeiramente miserável, sugerem-se algumas estratégias. Nutrir pensamentos negativos sobre o alvo do processo de desapaixonar-se. Mas isso pode trazer desconforto. Pensar em coisas motivadoras de felicidade. Quase impossível, pois a máquina de pensar está em moto contínuo a visar o objeto do amor.

Há uma técnica chamada “soco duplo”: focar os defeitos da pessoa que se quer esquecer mais uma dose de distração. O mergulho na bebida é contraproducente. O álcool libera freios inibitórios. É nesses momentos que se liga para quem, ao menos em tese, se pretende banir de sua vida.

Quem já passou por experiência semelhante sabe que, embora a ciência ofereça pistas, é impossível deixar voluntariamente de amar. Amar é uma parte essencial de nossa existência. Amar é como respirar. Experimente deixar de respirar. Ninguém consegue.

Na minha modesta e amadora opinião, aconselho esse meu amigo a se valer da experiência para cultivar uma virtude muito esquecida em nossos dias: a humildade. Quem ama e não é correspondido, ou quem teve de deixar um amor de lado, pode se reconhecer vulnerável, frágil, vítima favorita dessas armadilhas amorosas. Com isso, tornar-se alguém mais tolerante, menos vaidoso, à espera de que um novo afeto venha repor, e com acréscimos, aquele que já passou.

Além disso, pensar como o vulgo ensina: “há sempre um chinelo velho à disposição de um pé cansado”. Quanto a esquecer definitivamente, desapaixonar-se de vez, esqueça! Não há o que fazer!

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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