Não há espaço para ideais nazistas em uma democracia saudável

Não há espaço para ideais nazistas em uma democracia saudável

Daniel Kignel e José Luis Oliveira Lima*

09 de fevereiro de 2022 | 12h25

José Luis Oliveira Lima e Daniel Kignel. FOTOS: DIVULGAÇÃO

Há quase duas semanas, o mundo se recordou do dia em que o maior campo de extermínio da Segunda Guerra Mundial foi libertado pelo Exército Vermelho. Aquele era o início do fim de um dos capítulos mais vergonhosos da história humana, no qual um grupo, de início extremamente reduzido e insignificante, conseguiu assumir o governo de um dos países mais importantes da Europa, fazendo do continente seu teatro particular de atrocidades até então inimagináveis.

É interessante observar que a ascensão do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, também conhecido como Partido Nazista, não se deu através de luta armada ou de um golpe de Estado. É verdade que, dez anos antes, Adolf Hitler liderou o constrangedor movimento que ficou conhecido como “Putsch da Cervejaria”, uma tentativa frustrada e desastrada de tomar à força o poder na Alemanha. Mas a derrota nas ruas de Munique mostrou ao futuro ditador que seu domínio só seria legítimo se obtido pelas vias legais. E foi assim que, em 1933, um dos fundadores do Partido Nazista assumiu o cargo de Chanceler: sendo eleito democraticamente.

O breve resumo de como o Partido Nazista chegou ao poder é certamente desconhecido pelo Youtuber Bruno Aiub, ou “Monark”. Em seu último programa veiculado no canal Flow Podcast, Aiub defendeu que aqueles brasileiros que se identificam com os ideais nazistas deveriam ter direito a criar seu próprio partido.

Bruno Aiub, ao que tudo indica, defende a criação de um Partido Nazista Brasileiro, como se isso desse maior legitimidade ao nosso sistema democrático, garantindo assim espaço para o livre pensamento. O que o Youtuber ignora, em sua fala míope e descabida, é que o Partido Nazista original, ao contrário de outras agremiações políticas, nunca defendeu um projeto de País. O nazismo, em sua essência, é a defesa de um projeto de raça, de purificação social, alcançável apenas através da dizimação de grupos inferiores.

Não por outra razão, defender a criação de um Partido Nazista é defender que os ideais nacional-socialistas de supremacia racial, antissemitismo, xenofobia e violência, encontrem no Congresso Nacional um palanque para serem defendidos e debatidos. É a utilização da democracia para implodir o sistema democrático de dentro para fora.

Bruno Aiub dá todos os sinais de que desconhece por completo do que se trata o nazismo. Considera os ideais de Adolf Hitler como sendo apenas mais uma forma de pensamento, entendendo estar escudado por uma interpretação totalmente equivocada do princípio da liberdade de expressão. Infelizmente, os milhões de vítimas da máquina de guerra nazista, que pereceram durante a Segunda Guerra Mundial em campos de batalha, de concentração e de extermínio, não tiveram a sorte de serem protegidos por um sistema político capaz de frear a ascensão de um grupo que representa o que há de pior na humanidade, o que apenas aumenta a responsabilidade de democracias fortes e consolidadas, de nem sequer cogitar que algo assim seja aceitável. Não há espaço para ideais nazistas em uma democracia saudável.

*Daniel Kignel, advogado criminalista, membro do Instituto de Defesa do Direito de Defesa

*José Luis Oliveira Lima, advogado criminalista, membro do conselho do Innocence Project Brasil e do Instituto dos Advogados de São Paulo

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