‘Não foi apresentada razão que justificasse a substituição’, diz Valeixo à PF sobre troca de comando no Rio

‘Não foi apresentada razão que justificasse a substituição’, diz Valeixo à PF sobre troca de comando no Rio

Valeixo disse que 'não sabe dizer por quais razões' Bolsonaro teria indicado o nome do delegado Alexandre Saraiva, superintendente no Amazonas, para comandar a PF do Rio, no ano passado

Fausto Macedo, Paulo Roberto Netto, Pepita Ortega/SÃO PAULO e Patrik Camporez/BRASÍLIA

11 de maio de 2020 | 22h04

O ex-diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, afirmou que não foram apresentadas ‘razões’ que justificassem mudanças no comando da corporação no Rio de Janeiro. A troca foi mencionada pelo ex-ministro Sérgio Moro em duas ocasiões, sendo que uma delas, em agosto do ano passado, se tornou pública após o presidente Jair Bolsonaro alegar que a mudança ocorreria por ‘questões de produtividade’.

De acordo com Valeixo, durante seu período no comando da PF, Moro não indicou nomes para as superintendências regionais da corporação, mas relatou, em duas ocasiões sobre a troca de comando da PF Rio.

“Em nenhum dos casos foi apresentado nenhuma razão que justificasse a substituição, uma vez que não havia nenhuma reclamação sobre a condução dessas superintendências”, disse Valeixo.

Mauricio Leite Valeixo. Foto: Denis Ferreira Netto/Estadão

A primeira ocasião, segundo Valeixo, ocorreu em junho do ano passado quando o então ministro da Justiça o procurou ‘sobre a possibilidade de troca do superintendente do Rio de Janeiro, dr. (Ricardo) Saadi, pelo dr. (Alexandre) Saraiva, então superintendente no Amazonas’. A troca de comando, segundo o ex-diretor, teria sido ‘ventilada pelo presidente’, segundo o informou Moro.

Valeixo disse que ‘não sabe dizer por quais razões o presidente da República teria sugerido aquele nome’, se referindo a Saraiva, mas que somente em agosto de 2019, quando Bolsonaro se manifestou à imprensa sobre o desejo de trocar o comando da PF, que o assunto veio a público. À época, o presidente alegou que a troca ocorreria por ‘questões de produtividade’.

O ex-diretor da PF rebateu a afirmação. Segundo Valeixo, a PF do Rio se destacou nos índices de produtividade operacional.

Valeixo informou à PF que o próprio Saraiva não teve participação no processo de escolha do nome do comando da PF Rio no ano passado e, inclusive, ‘se desculpou pelo inconveniente gerado’ em torno do seu nome.

Cansaço. A segunda situação mencionada por Valeixo teria ocorrido em janeiro deste ano, durante viagem aos Estados Unidos ao lado de Moro. Em depoimento, o ex-ministro afirmou que teria recebido uma mensagem de Bolsonaro em que o presidente afirmava que queria ‘apenas a superintendência do Rio’.

Valeixo disse que não soube da mensagem durante a viagem, mas Moro ‘lhe transmitiu o desejo do presidente da República em mudar o comando da superintendência do Rio novamente’.

A situação levou Valeixo a relatar ao ex-ministro que ‘se sentia desgastado no cargo desde o segundo semestre de 2019’ e entendia que ‘havia encerrado o seu ciclo no comando da Polícia Federal’. Foi durante essa viagem que o ex-diretor afirma ter renovado ‘mais uma vez’ para ser substituído ‘para evitar maiores desgastes’.

Moro teria sugerido o nome do delegado Fabiano Bordignon e Valeixo, o do seu número dois, Disney Rossetti, para comandar a PF.

Sobre Alexandre Ramagem, o nome que viria a ser indicado por Bolsonaro para comandar a corporação, Valeixo afirmou que ele se aproximou da direção-geral após os atritos provocados pela tentativa de troca de comando da PF Rio no ano passado. O ex-diretor-geral afirmou que ‘não tinha conhecimento de eventual amizade’ entre ele e Bolsonaro e disse que não houve tentativa por parte dele, junto à Presidência, para interferir em sua gestão.

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