Não fazem mal as musas

Não fazem mal as musas

José Renato Nalini*

05 de janeiro de 2022 | 14h15

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Os juristas manejam a palavra e devem manejá-la bem. Mal colocada ou faltante, ela encarcera, empobrece, magoa e mata. Por isso o treino diuturno do vernáculo, o apuro na elaboração das frases, a concatenação das ideias, a clareza, a objetividade e, se possível, a concisão.

A familiaridade do universo do direito com as letras suscita vocações. Há muitos literatos que passaram pelas Arcadas e pelos milhares de filhotes que nelas se inspiraram. E há poetas! Cada vez mais necessários, no mundo surreal em que o Brasil mergulhou há tempos e de cuja obscuridade parece não querer sair.

Por isso é com prazer e sem surpresa que recebo os “versos ateus” de Fábio Ulhoa Coelho, no livro “Arquetipia”.

Deleito-me com a mensagem ecológica bem apropriada a esta era de extermínio da flora amazônica: “E, desde então, somos todos órgãos/Rodeados por medo e ânsia/Aguardamos o fim da feroz luta/ Que tudo nada é mais que isso/ Dias são o sol entreabrindo luzes e cores/ Noites são batalhas vencidas pelo peixe”.

Encontro-me num relato da ancianidade e me vejo em relação à minha filha caçula, que sempre está atenta ao pai idoso: “Já basta o peso injusto que sou na vida dela; Eu que estou vivendo demais/Num corpo cruel que insiste em ficar/Quando boa parte da memória já não está mais”.

Detecto a sensibilidade de Fábio, ao lamentar a morte de Duda, a “beleza encaracolada/Pronta para anos que não serão” e que “cinco desorientadas repentinas balas/Deixaram Duda na fotografia”.

Como tendo a lamuriar, com razão e sem razão, aceitei como recado para minha alma este conselho: “Pranteie suas feridas em silêncio/Deitada, pernas dobradas junto ao peito/Que ninguém ouça os soluços/Ou adivinhe essas lágrimas corrosivas/Sofra contida, sozinha, calada/Resista o mais que puder, adie, esqueça/Ninguém conta com ninguém/Você só tem a você mesma/Esconda suas aflições coo se tesouro fossem, que não são/Cuide-se que elas, se bem enclausuradas, um dia se vão/Não redessocialize as dores/Cubra-as de recato, guarde-as com zelo/Que todos somos alheios e obscuros/E há saboreamento, mais que aconchego”.

Partilho da opinião do poeta quanto àquelas “mensagens de fim de ano/E suas esperançosas renovações/Seus cínicos desejos de saudável mudança/Não há nada mais patético, concorda?”.

Paulistano lúcido não deixa de considerar São Paulo uma insensatez. Sedutora, desafiadora, lúgubre e tétrica às vezes. Mas a desvairada paixão andradiana que Fábio incorpora está em versos instigantes: “São Paulo, sisuda cidade grafitada/onde nasci e tomo cerveja/Enraizado em suas durezas/sinto pertencer a você/nua morada dos meus acasos/Solidão espremida e desconfiada/no meio de exércitos de olhares baixos/Abruptas, acidentais perturbações/Adivinháveis desencontros marcados”.

Esse poema de Piratininga propõe uma cornucópia de análises. Vale para uma decomposição em sala de aula, cada aluno expondo sua sensação, à leitura de um verso. Verifique-se a riqueza de tonalidades extraíveis de algo como “São Paulo, desgraciosa cidade tatuada/onde casei e visito capelinhas da arte/Escondidos nas suas riquezas/sei que estão os amigos que procuro/ansioso, despreparado, frustrado”.

Há um relato bem cru de um casamento arranjado – o poema número 40 – real e aplicável a tantos casais conhecidos! E uma concepção de pecado instigante e verdadeira: “Sinto o pecado/Neste momento cru/Aconchegar-se”. Não é um sentimento já experimentado? Uma atração irresistível pelo errado. E a satisfação antagônica ao remorso: “E, agora pecador, /Olho o estrago/E saboreio”.

Um conceito de felicidade singular: “Felicidade é uma sábia mistura/De desapegos e vínculos”. E um acerto de contas com nossos antepassados: “Não tereis sossego/Enquanto não fizerdes as pazes/Com os ancestrais que habitam em vós”.

O filosofar dolorido ante a inevitabilidade da morte: a certeza de que esse encontro indeclinável pode estar mais próximo, em tempos de pandemia. “Não temia a morte/Que estava dada/Tinha medo sim de uma vida banal/De se aprisionar em dias insossos/Atormentados de serena mediocridade/Livre-me Deus dos clichês e da serotonina/Dizia a solitária reza da única liturgia/De sua suficiente religião”.

Faz pensar o exame de consciência que se inicia com “A noite veio, Senhor, para esta alma vil/Tempo de ensimesmar, refazer narrativas/Colher abonações, sobretudo lapidar defesas” e termina com a confissão: “Economizei centavos e desdenhei milhões/ Mimei os filhos, vaidoso por estragá-los/E reclamei dos pais, para desonrá-los com ira/Como pude, Senhor, ser assim tão humano?”.

Fábio Ulhoa Coelho é um poeta cujos versos “têm o peso de anos e o niilismo fértil de reveses colecionados”. Seu livro prova que não fazem mal as musas aos juristas. Sua poesia faz imenso bem para quem sorvê-la com serena atenção. Experiência própria. Recomendo a todos.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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