Não faltou coragem em 1932

Não faltou coragem em 1932

José Renato Nalini*

17 de junho de 2022 | 07h00

Soldados paulistas posam para foto durante a Revolução Constitucionalista de 1932. FOTO: ACERVO ESTADÃO

A celebração dos 90 anos da Revolução Constitucionalista de 1932 merece a melhor consideração por parte das mídias, mas também dos intelectuais paulistas. A tradição de brio bandeirante esteve altaneira entre os pensadores à época. Não se portaram como avestruzes, nem se escudaram na falaciosa escusa de que “política é suja e não entro nela”. Assumiram o seu compromisso para com a História. E o compromisso estava muito claro desde os primórdios dessa Revolução fratricida, em que São Paulo ficou sozinho, a lutar contra todos os outros Estados da Federação, áulicos da ditadura, de cuja desfaçatez extraíam benesses.

Dois efetivos partícipes da Revolução escreveram livros que são testemunhos autênticos do que ocorreu em São Paulo naquele 1932 de heróis. Alfredo Ellis escreveu “A Nossa Guerra” e Menotti Del Picchia publicou “A Revolução Paulista”. Ambos eram integrantes da Academia Paulista de Letras, instituição que existe desde 1909 e que hoje tenho a suprema honra de presidir.

Naquele momento, não houve Pilatos entre os mais influentes eruditos de Piratininga. Os tempos mudaram. Existe a massa considerável de pusilânimes, que não têm coragem de evidenciar suas simpatias, a não ser quando o cenário confirmar o favoritismo de algum lado. Há também os hipócritas, que rendem culto simultâneo a vários altares. Querem estar bem com todos. Em menor número, os que se definem.

Poder-se-ia perguntar: onde foi parar a coragem cívica? Onde foi parar a responsabilidade cidadã? Onde foi parar a honra?

Mas é Menotti quem nos relata que, em 1932, assim como todos os industriais, os engenheiros, os médicos, os professores, os advogados, os operários, os estudantes e o povo da zona rural, que ainda era bem povoada, assumiram o encargo de lutar pela constitucionalização do Brasil. São Paulo assumiu a tutela de valores que não eram tão importantes para as unidades da Federação que tiravam proveito do autoritarismo.

Não faltou coragem aos intelectuais de São Paulo, dignos herdeiros da tradição bandeirante, aquela mesma que garantiu a esta nação a sua dimensão continental e a ocupação de todo o imenso território por obra e mérito dos bandeirantes. Tão menosprezados hoje, como se fosse possível julgar com valores do século XXI, as condutas dos séculos de XVI a XVIII.

Recorro a Menotti para homenagear – em singelo preito de gratidão, virtude por muitos negligenciada, por outros totalmente esquecida – aqueles que merecem nosso reconhecimento. Diz ele: “Todos os nossos intelectuais estiveram a postos. No jornal, no rádio, na cruzada artística, nas organizações de guerra e nas trincheiras. Nenhum faltou ao seu dever a não ser um ou outro renegado a quem o cálculo e o interesse falaram mais alto que a voz do sangue. Monteiro Lobato, Cassiano Ricardo, Paulo Setúbal, Guilherme de Almeida, Mário de Andrade, Alfredo Ellis, Cyro Costa, René Thiollier, os Alcântara Machado, Correia Júnior, Motta Filho, Orígenes Lessa, Cleomenes Campos, Rocha Ferreira, Veiga Miranda, Mello Nóbrega, Walther Barioni, Eurico de Góes e todos os demais romancistas, poetas, críticos, ensaístas; Antonieta Rudge, Guiomar Novaes Pinto, Souza Lima, Francisco Mignone, Marcello Tupinambá, Camargo Guarnieri, Alonso Annibal da Fonseca, Francisco Caldeira e todos os nossos mestres musicistas cooperaram por todas as formas; Victor Brecheret, Gobbis, Mugnani, Lopes de Leão, Pedro Alexandrino, Monteiro França, Lasar Segall, Badenes, Belmonte, Valle, enfim, todos os grandes nomes da pintura, da escultura, das artes em geral trouxeram sua contribuição valiosa e espontânea. Assim o fizeram os mestres de direito, da medicina, da engenharia, de todas as ciências, professores e magistrados, profissionais e estudantes. Todos os operários do pensamento e os mais fulgurantes líderes da nossa espiritualidade”. Todos os primeiros mencionados por Menotti eram “imortais” da Academia Paulista de Letras, o que evidencia o protagonismo dessa Casa de Cultura por excelência do Largo do Arouche.

E não foi mera manifestação de “simpatia”. Foi uma adesão incondicionada, uma “cooperação sem tréguas, integral, uma verdadeira emulação de esforços”.

Menotti recorda os pronunciamentos candentes, que empolgavam multidões, como o de Ibrahim Nobre, que Paulo Bomfim cognominava “o Tribuno da Revolução”, que exultava: “Até que enfim, minha Terra! Chegou a nossa hora, a hora física da nossa fé brasileira! São Paulo hoje é um soldado só. De pé e em armas. Sem desfalecimento. Sem discussão. Nós vamos para a frente, nós marchamos para o Rio de Janeiro, custe o que custar. Por Deus do céu. Nós defendemos uma causa. Não pleiteamos uma coisa. É a luta da luz contra a treva: do bem contra o mal; do sol contra o miasma; de Jesus contra Lenine. Nós somos o lar, a religião, a tradição, o passado, o futuro, o sangue. Brasileiramente. Catolicamente”.

Essa coragem ainda reside em algum peito mais patriota? Que resplandeça, quando o Brasil dela necessitar. E parece já estar necessitando.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-202

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